Acidentes de trânsito aumentam no Carnaval e pressionam SUS

Consumo de álcool, privação de sono e excesso de velocidade elevam número de ocorrência e sobrecarregam hospitais públicos durante o feriado

Durante o período de Carnaval, os acidentes de trânsito registram um aumento significativo em todo o país, impulsionados principalmente pelo consumo de álcool associado à direção. De acordo com a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), as ocorrências crescem entre 20% e 30% durante as festas, e quase dois terços dos casos envolvem motoristas embriagados. O cenário se repete ano após ano e coloca o feriado entre os mais críticos para a rede pública de saúde.

Dados do Observatório Nacional de Segurança Viária indicam que, entre 2021 e 2023, a ingestão de álcool ou de outras substâncias psicoativas foi a principal causa de, em média, 16,2 acidentes por dia no Carnaval — um aumento de 25% em relação à média registrada nos demais dias do ano.

Na prática, essa escalada de ocorrências impacta diretamente os hospitais públicos. Em Curitiba, o Hospital Universitário Cajuru — instituição 100% SUS e referência em atendimento a traumas — registrou, em 2025, o maior número mensal de atendimentos por acidentes de trânsito justamente em março, período em que ocorreu o Carnaval. Foram 501 ocorrências, quase 100 a mais do que o segundo mês com maior demanda. Os números ajudam a mensurar o impacto da festa não apenas nas ruas, mas também na rotina e na capacidade de resposta do sistema público de saúde.

Principais causas do aumentoO aumento no número de acidentes nessa época do ano é resultado da combinação de vários fatores de risco. “Durante o Carnaval, há um aumento expressivo de pessoas circulando simultaneamente, muitas vezes em cidades diferentes e por vias desconhecidas, geralmente após festas, com consumo elevado de álcool e outras substâncias. Isso torna o trânsito mais caótico e imprevisível”, afirma Ricardo Gullit, médico clínico do Hospital Universitário Cajuru.

Além da combinação álcool e direção, fatores como privação de sono, cansaço por dirigir de madrugada, calor, desidratação, excesso de velocidade e o uso do celular ao volante contribuem para um cenário que não apenas eleva o número de ocorrências, mas também a gravidade dos acidentes. “No pronto-socorro, não vemos apenas mais colisões, mas acidentes muito mais graves”, alerta o médico.

Lesões mais comuns e sequelasAs consequências vão muito além do momento do impacto. De acordo com o ortopedista do Hospital Universitário Cajuru, Eduardo Novak, as lesões mais comuns envolvem fraturas de membros inferiores — como perna, fêmur, tíbia, tornozelo e pé —, especialmente entre motociclistas e pedestres, considerados o grupo mais vulnerável. “Também são frequentes as fraturas de membros superiores, que atingem braço, punho, mão e clavícula, além de luxações de ombro, escoriações extensas, cortes profundos e lesões de tendões”, revela.

Nos casos mais graves, há fraturas de coluna e lesões medulares, que podem resultar em paraplegia ou tetraplegia, além de traumatismos cranianos e lesões de pelve, responsáveis pelos altos índices de mortalidade.

Esses traumas frequentemente deixam sequelas permanentes. Segundo Novak, muitos pacientes desenvolvem dor crônica, limitações de mobilidade, desgaste precoce das articulações e déficits neurológicos, como fraqueza muscular, formigamento ou paralisia. “Há pacientes que passam a depender de bengala, cadeira de rodas ou ficam incapacitados para o trabalho”, aponta.

Além dos impactos físicos, os efeitos psicológicos também são significativos. Quadros de ansiedade, depressão e medo de voltar a dirigir são comuns, especialmente entre os mais jovens.

Impacto no SUSA sobrecarga causada pelo aumento dos acidentes é sentida de forma intensa nos hospitais públicos, responsáveis pela maior parte do atendimento às vítimas de trauma. “A imensa maioria desses pacientes é atendida pelo SUS, já que os hospitais públicos concentram a estrutura, as equipes especializadas e os recursos necessários para lidar com casos complexos”, explica Gullit.

Internações prolongadas, ocupação de leitos de enfermaria e de UTI por semanas ou meses e o uso de materiais de alto custo, como placas, parafusos e próteses, acabam impactando diretamente o funcionamento do sistema. “Isso pode atrasar cirurgias eletivas e comprometer o atendimento a outras doenças graves, como câncer, infarto e condições crônicas em idosos e crianças. “É um efeito em cascata que sobrecarrega equipes e consome recursos que poderiam ser usados em outras frentes”, completa Novak.

Recomendações para prevenir acidentesOs especialistas reforçam que a prevenção depende, sobretudo, de escolhas individuais. “Álcool e direção nunca combinam. Planejar a volta da festa, optar por transporte por aplicativo ou táxi e respeitar os limites de velocidade são atitudes fundamentais”, orienta Gullit. Ele também destaca a importância de dormir bem antes de pegar estrada, de evitar o uso do celular ao volante e de adotar a direção defensiva.

O uso adequado dos dispositivos de segurança, como cinto de segurança nos automóveis e capacete nas motos, é fundamental para reduzir a gravidade das lesões. “No verão, quando as chuvas são mais frequentes, é importante reduzir a velocidade, manter uma distância segura e revisar o veículo antes de viajar, especialmente pneus, freios e limpadores de para-brisa”, recomenda Novak. Pedestres e ciclistas também devem redobrar a atenção, vestindo roupas claras, respeitando a sinalização e atravessando as vias apenas em locais apropriados.

Campanha de conscientizaçãoPara alertar a população sobre os riscos do consumo de álcool associado à direção e de comportamentos imprudentes no trânsito durante o feriado, o Hospital Universitário Cajuru realiza a campanha de conscientização “No carnaval, nada parece mal”. A iniciativa inclui a produção e divulgação de materiais informativos nas redes sociais e no site da instituição, bem como a veiculação de mensagens em painéis instalados em pedágios nas estradas que ligam Curitiba ao litoral de Santa Catarina. A campanha também marca presença durante o carnaval de rua de Curitiba, com ações educativas voltadas a foliões, motoristas, pedestres e ciclistas, reforçando a importância de escolhas responsáveis para evitar acidentes e preservar vidas.

Sobre o Hospital Universitário Cajuru

O Hospital Universitário Cajuru é uma instituição filantrópica com atendimento 100% SUS e com a certificação de qualidade da Organização Nacional de Acreditação (ONA) nível 3. Está orientado pelos princípios éticos, cristãos e valores do Grupo Marista. Vinculado às escolas de Medicina e Ciências da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), preza pelo atendimento humanizado, com destaque para procedimentos cirúrgicos, transplante renal, urgência, emergência, traumas e atendimento de retaguarda a Pronto Atendimentos e UPAs de Curitiba e cidades da Região Metropolitana.

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