Ameaçada, Floresta com Araucárias ainda é motivo de preocupação

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Produção sustentável de pinhão e erva-mate agrega valor ao ecossistema e contribui para sua conservação

Um dos ecossistemas mais característicos da região sul do Brasil e bastante ameaçado, a Floresta Ombrófila Mista (FOM), ou Floresta com Araucárias, tem hoje menos de 3% da sua área original. O motivo são os anos de degradação e o corte de seus pinheiros que a levaram a essa situação crítica. Como consequência, uma das espécies mais emblemáticas do ecossistema, o pinheiro-do-paraná ou araucária (Araucaria angustifolia) entrou na Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas de Extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN).

Na Região Sul, local que tinha grande parte de sua extensão coberta por essa floresta, Santa Catarina foi o estado que mais conseguiu conservar o ecossistema, mesmo com o desmatamento de quase 75% da área original. De acordo com o biólogo e engenheiro agrônomo Jaime Martinez, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), são 25% de área original que restaram e que formam a maior área preservada de Floresta com Araucárias no mundo.

“Embora a ocorrência da espécie seja majoritária na região Sul do País, existem populações naturais da espécie na Região Sudeste, mais precisamente nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro e localizadas, em sua maioria, dentro de uma unidade de conservação, a APA Serra da Mantiqueira, classificada em estudo publicado na revista Science como a oitava área insubstituível do mundo”, destaca Martinez.

Valorizar para conservar

Para contribuir na conservação da  Floresta com Araucárias, a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e a Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (CERTI), implantaram no estado de Santa Catarina uma iniciativa  que agrega valor  aos produtos extraídos desse ecossistema de acordo com um padrão sustentável de produção – como o pinhão, semente da araucária, e a erva-mate, ambas espécies nativas. A iniciativa Araucária+ reúne produtores do Planalto Serrano catarinense, indústria, varejo e sociedade, criando uma rede sustentável de produção, venda e consumo.

Desde o seu início, em 2014, a iniciativa contabiliza 50 instituições envolvidas (entre empresas, ONGs, governos e instituições de pesquisa), 83 produtores articulados,  470 hectares de floresta conservados, e quatro transações comerciais com três empresas.

Para Martinez, ações que colocam a Araucária em evidência, são uma excelente forma de agregar valor à floresta. “Além do cuidado dos consumidores com a compra do pinhão maduro, outras estratégias complementares são fundamentais para promover a conservação dos remanescentes de Floresta com Araucárias. Entre elas estão a coibição do desmatamento ilegal e a agregação de valor à produção não madeireira, mantendo a floresta em pé”, garante.

Época certa para colher e comercializar

Matérias-primas vindas da Floresta de Araucária, o pinhão e a erva-mate, devem seguir algumas normas na hora da extração. Um dos indicativos do momento adequado para a colheita do pinhão, por exemplo, é a queda de temperatura. Se feita antes da hora, pode gerar prejuízos tanto para o consumidor, como para o meio ambiente, pois interfere na manutenção da árvore e de todo seu ecossistema.

Martinez afirma que a prática da coleta do pinhão no tempo certo é um fator positivo no que diz respeito à conservação da Floresta com Araucárias. “Enquanto os produtores locais tiverem retorno econômico com o pinhão, eles vão assegurar a existência da Araucária. Porém, para que a atividade seja sustentável, a coleta devemanter em torno de 50% dos pinhões. Dessa forma, há sobra suficiente para as aves e outros animais que se alimentam da semente, e também para a germinação de novas plantas”, diz o biólogo.

O que ocorre é que muitos coletores se adiantam e removem a pinha ainda na árvore, afetando a germinação de novas plantas. A semente que não amadurece na Araucária perde em sabor para aquela que foi colhida no tempo certo, e os animais que se alimentam do pinhão também são afetados, pois têm menos alimento disponível, gerando um efeito em cadeia.  Por isso o ideal é que a colheita seja feita no solo, buscando os pinhões que realmente estão maduros.

Já a erva-mate não deve ser colhida no período da floração (de setembro a dezembro) e as árvores precisam ficar com, pelo menos, 30% das folhas. “Outra medida muito importante que o Araucária+ incentiva, e que também vale para o pinhão, é a retirada do gado de dentro da floresta. O gado pisoteia o solo, deixando-o compacto, e dificultando a germinação de sementes das espécies vegetais nativas da floresta. Além de também comer as mudas que já estão estabelecidas”, explica o coordenador de Estratégias e Conservação da Fundação Grupo Boticário, Guilherme Karam.

Sobre a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza

A Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza é uma organização sem fins lucrativos cuja missão é promover e realizar ações de conservação da natureza. Criada em 1990 por iniciativa do fundador de O Boticário, Miguel Krigsner, a atuação da Fundação Grupo Boticário é nacional e suas ações incluem proteção de áreas naturais, apoio a projetos de outras instituições e disseminação de conhecimento. Desde a sua criação, a Fundação Grupo Boticário já apoiou 1.510 projetos de 496 instituições em todo o Brasil. A instituição mantém duas reservas naturais, a Reserva Natural Salto Morato, na Mata Atlântica; e a Reserva Natural Serra do Tombador, no Cerrado, os dois biomas mais ameaçados do país. Outra iniciativa é um projeto pioneiro de pagamento por serviços ambientais em regiões de manancial, o Oásis. Mais informações: http://www.fundacaogrupoboticario.org.br/

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