Artigo: Deletar a Cracolândia não é solução

[flgallery id=965 /]

Por Ipojucan Calixto Fraiz, médico e doutor em Sociologia, é professor do curso de Medicina da UFPR e da Universidade Positivo (UP)

 
No filme Estamira, uma portadora de transtorno de saúde mental vive da coleta do que pode ser aproveitado do monturo de coisas que a sociedade de consumo rejeita. As cores de Estamira se confundem com as cores das montanhas de lixo, mas o seu discurso desviante denuncia as contradições da norma social. Essas observações podem servir para uma reflexão sobre o tratamento que se tem dado ao que se convencionou chamar de Cracolândia. Tratar aquele espaço como um depósito de gente e tentar retirar da paisagem a desarmonia da Cracolândia, por meio de destruição e demolição, pode assemelhar-se à ideia de que o lixo deve ser afastado dos nossos olhos.

Da mesma forma que nossa sociedade, pautada na racionalidade do consumo, produz excedentes que vão para o lixo, queremos esse lixo longe da nossa rua. Podemos pensar que tratamos da mesma forma aqueles que, em não atendendo à razão de ser da sociedade, são considerados desviantes e devem ser excluídos da nossa convivência. Estamira está posta pela sociedade como um rejeito humano e a ela resta viver do lixo. Tratar os usuários ou dependentes de uma droga chamada crack (que, aliás, não foram eles que inventaram) como rejeito social é buscar a forma mais grave de violência que o Estado pode fazer, que é a supressão do sujeito e de seus direitos. Buscar na Justiça autorização para internação compulsória de forma indiscriminada é tentar dar ao Estado a possibilidade do domínio pleno sobre os indivíduos. Isso só se justifica se negarmos as subjetividades, retirarmos todos os direitos humanos e tratá-los como objetos.
Sabemos que o tema é complexo, mas a sociedade não pode dar ao Estado delegação para reduzir as pessoas à categoria de problema ou de lugar indesejável e excluí-las da paisagem. Ocorre que, no Brasil, a sociedade está cada vez mais servindo ao Estado e não o contrário, como é de se esperar. Cabe às políticas públicas encontrar soluções que atendam aos interesses de toda a sociedade, mas em particular a cada um dos sujeitos envolvidos. A solução é complexa, mas é possível. Deve-se partir do princípio inalienável de que os direitos de todos devem ser preservados. Assistir, escutar e apoiar vêm antes de reprimir, excluir e retirar direitos.
A Política Nacional de Saúde apresenta mecanismos adequados de abordagem dos transtornos mentais e da dependência de drogas. Porém, cabe aos poderes locais a responsabilidade de mobilizar competências de gestão que permitam tratar o problema de forma respeitosa e humana e não buscar, por atalho, soluções drásticas que, além de nada resolverem, acentuam a exclusão social e a marginalização daqueles que já estão à margem. A insensibilidade dos que chegaram ao poder e o exercem pode levar a soluções autoritárias, como por exemplo transformar o instituto da internação compulsória em regra. Qualquer um de nós pode estar nas mãos de um Estado autorizado a cercear direitos fundamentais da condição humana, mas, por enquanto, é urgente olharmos por aqueles que, por serem os mais vulneráveis, serão os primeiros a voltar aos antigos manicômios, que querem reinstalar. Teremos uma reedição da realidade descrita por Daniela Arbex no livro Holocausto Brasileiro se não soubermos colocar ao Estado os limites que a cidadania em cada um de nós exige.

Share:

Latest posts

O projeto do OÁS prioriza janelas amplas, que aumentam a entrada de luz natural e favorecem a ventilação
Economia de até 30% na conta de luz também é luxo: como o ESG se tornou pilar da valorização imobiliária
Divulgacao-Lightland-Producoes (2)
Exposição imersiva Van Gogh & Impressionistas chega pela primeira vez a Ponta Grossa em setembro
Student's hand writing on paper with a pencil during an exam in
Projeto social leva alunos da rede pública do Paraná ao topo do desempenho em escolas particulares

Sign up for our newsletter

Acompanhe nossas redes

related articles

O projeto do OÁS prioriza janelas amplas, que aumentam a entrada de luz natural e favorecem a ventilação
Economia de até 30% na conta de luz também é luxo: como o ESG se tornou pilar da valorização imobiliária
Com o aumento da frequência de eventos climáticos extremos e dos impactos ambientais observados nos últimos...
Saiba mais >
Divulgacao-Lightland-Producoes (2)
Exposição imersiva Van Gogh & Impressionistas chega pela primeira vez a Ponta Grossa em setembro
 Shopping Plaza Campos Gerais vai receber a experiência que já vendeu mais de 1 milhão de ingressos...
Saiba mais >
Student's hand writing on paper with a pencil during an exam in
Projeto social leva alunos da rede pública do Paraná ao topo do desempenho em escolas particulares
Parceria entre Grupo Positivo e Instituto Trampolim entra em nova etapa após resultados positivos entre...
Saiba mais >
81_GT_PADRE ANCHIETA_TOPO-HR00
Bigorrilho consolida posição entre os bairros mais valorizados de Curitiba e reforça atratividade para empreendimentos de alto padrão
Tradicionalmente associado à qualidade de vida e à infraestrutura consolidada, o Bigorrilho vem reforçando...
Saiba mais >