Artigo: O útil e o fútil do mundo digital

Por Jacir J. Venturi, coordenador da Universidade Positivo, presidente do Sinepe/PR e vice-presidente da ACP

 
A decantada Biblioteca de Alexandria reinou absoluta como centro da cultura mundial no período do século 3.º a.C. ao século 4.º d.C. Edificada no delta do Rio Nilo, conjectura-se que estiveram sob a sua guarda cerca de 700 mil rolos de papiros, tendo como objetivo adquirir um exemplar de cada manuscrito existente na Terra. Estava, assim, muito próxima do que se entende hoje como universidade, assegura Carl Boyer em seu livro A História da Matemática. No entanto, o manuseio das obras era restrito aos mais conspícuos filósofos, matemáticos, astrônomos, poetas e tradutores.
Quando em 1455 Gutenberg inventou a tipografia, raros eram os livros – ainda manuscritos, grande parte produzidos pelos monges copistas – e poucos sabiam ler (cerca de apenas 15% dos europeus). Tamanho foi o alcance e a influência da imprensa que ela foi considerada a maior revolução tecnológica do milênio, pois propiciou a democratização do conhecimento, com produção em escala de livros e jornais, e influenciou extraordinariamente o Renascimento.
Alçado sobre esses dois marcos históricos, o advento da internet nos conduziu à Era da Informação, na qual esse fascinante mundo do “www” representa a mais ampla e democrática forma de acesso ao saber e à pesquisa. A bem da verdade, a internet é um poderoso agente de transformação do nosso modus vivendi et operandi. A Cisco (líder mundial em TI) supõe existirem hoje 25 bilhões de máquinas on-line (com IP), das quais 7 bilhões são dispositivos móveis. Cerca de 60% dos brasileiros se conectam diariamente e já gastam mais do dobro do tempo assistindo a vídeos digitais (13,6 horas/semana) em relação à televisão (5,5 h/semana).
Essa conectividade global rompeu com os consagrados modelos pedagógicos e educacionais, pondo abaixo a oralidade que predominava em nossas salas de aula. As novas metodologias ativas e tecnologias educacionais estão amplamente disponíveis, e cabe ao bom professor agregá-las à sua aula expositiva, eivada de entusiasmo e boa didática. Muito se avança no ensino híbrido, no qual parte das aulas é presencial e parte virtual – e nesta o aluno estuda no seu gadget em qualquer lugar e horário.
Assim, se hoje não enfrentamos as restrições de acesso da Biblioteca de Alexandria, tampouco dos custos da imprensa de Gutenberg, estamos diante do meio perfeito de democratização da informação? Seguramente que não! Seria impróprio demonizar o ambiente on-line, mas, reconheçamos, é um ecossistema que pode ser falacioso, pois significativa parcela de seus bits é fútil e sobremaneira perniciosa àquelas crianças e adolescentes que dedicam de duas a quatro horas diárias às redes sociais, aos vídeos – nem sempre educativos – etc. Sacrifica-se a sociabilização, a cooperação doméstica, a compleição física por falta de esportes e, em especial, as leituras e os estudos.
No convívio familiar ou em grupos de amigos, os relacionamentos estão cada vez mais virtuais, o que compromete o bom diálogo, o toque e o afeto. Juntos, porém sozinhos, vivenciamos as ausências presenciais – são os cibersolitários.
A internet é virtuosa na medida em que nos torna mais produtivos e oferta uma miríade de informações instantâneas e avanços extraordinários na qualidade de entretenimento e labor. É, no entanto, caótica e falaciosa pelo desperdício de tempo com futilidades e conteúdos fragmentados, perda de concentração e redução do contato presencial com amigos e familiares. A sabedoria está no uso consciente e equilibrado deste útil, fascinante, porém pernicioso e fútil mundo da web. Numa roda de amigos, ouvi o que julgo ser a mais pertinente alegoria, que compara a internet à lua cheia: brilhante e sedutora, mas tem o seu lado oculto.

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