Artigo: Promessas inviáveis

[flgallery id=1605 /]

José Pio Martins*

Nos próximos seis meses, assistiremos a três eventos: bons jogos de futebol, repetitivas eleições e promessas inviáveis. Os primeiros, em função da Copa do Mundo, serão prazerosos. As segundas, em função dos pleitos nos estados e na União, serão cansativas. As terceiras, em função da cultura demagógica vigente, serão incumpríveis. Qualquer um de nós que queira fazer o bem tem de enfiar a mão no bolso e gastar seu próprio dinheiro. Já os políticos têm o privilégio de praticar um esporte delicioso: gastar o dinheiro dos outros. Só que os “outros” somos nós, todos os que produzem e pagam impostos.
Roberto Campos ironizava dizendo que, no parlamento, temos um problema e uma sorte. O problema, dizia ele, é que “todos os que chegam aqui querem fazer alguma coisa”. A sorte é que “a maioria não conseguirá fazer o que promete”. Sinto arrepios quando um político começa a prometer um monte de coisas ao povo, pois a mais elementar lição da economia é que o governo não dá nada à sociedade que antes dela não tenha tirado. Quando tenta dar ao povo o que não tirou em forma de tributos, o governo ou emite moeda (que cria a tragédia da inflação) ou faz dívida (que eleva os juros e reduz o crescimento econômico).
O Brasil produziu R$ 6,53 trilhões no ano de 2017. Esse é o produto interno bruto (PIB), que é igual à renda nacional. Mais de um terço foi entregue ao governo em tributos, nos três níveis, algo em torno de R$ 2,2 trilhões. Mesmo com essa montanha de dinheiro, o governo gastou R$ 110,6 bilhões a mais do que arrecadou, que é o déficit primário antes de contar os juros da dívida pública. Como o governo vem gastando mais do que arrecada há décadas, a dívida pública já chegou a 74,3% do PIB, e vai custar mais de R$ 400 bilhões de juros em 2018.
Uma das causas do desemprego é a dívida consolidada de todo o setor estatal. A sociedade como um todo – pessoas e empresas – deposita dinheiro nos bancos. E os bancos têm apenas três clientes: as pessoas, as empresas e o governo. Se o governo avidamente vai aos bancos pedir dinheiro emprestado, por meio de emissão de títulos públicos e outros empréstimos, falta dinheiro para financiar as pessoas (consumidores) e as empresas. E com isso, o PIB não cresce, logo, não há criação de empregos. Se você é um desempregado, saiba que os déficits do governo e a dívida pública são os principais culpados.
Alguém pode perguntar: mas por que o governo tem tanto déficit e tanta dívida? Vamos lembrar de dois pontos. Um é o aumento dos gastos com salários e custeio dos serviços públicos e da máquina administrativa nos 5.570 municípios, 26 estados, Distrito Federal e União. Outro, em 2017, o déficit do INSS (previdência dos trabalhadores do setor privado) mais o déficit da previdência somente dos servidores federais deu um total de R$ 270 bilhões, sendo R$ 180 bilhões de déficit do INSS (para pagar 30 milhões de beneficiados) e R$ 90 bilhões de déficit (para pagar apenas um milhão de servidores públicos federais).
O quadro de déficit e de dívida acumulada responde pelo baixo volume de investimentos em infraestrutura e pelo baixo crescimento da economia, logo, pela baixa renda per capita e pelo alto desemprego. Aumento de tributos é algo contra o qual a sociedade deve se rebelar e não aceitar. Então, governo bom será aquele que conseguir consertar essa confusão financeira e o estado de desequilíbrio das contas públicas, não aquele que prometer gastar mais. Novamente: o governo só dá a João o que tirou de Pedro, Maria, Antonio e demais brasileiros. Não há milagres. Quem diz que há, é apenas um demagogo.
As eleições estão próximas. Tão logo termine a Copa do Mundo, entrará em cena a campanha eleitoral e a promessa de gastar o dinheiro dos outros. Caso tentem cumprir suas promessas, terão que enfiar a mão no bolso do povo, a menos que façam promessas boas como reduzir o tamanho do governo, combater o desperdício, aumentar a eficiência da administração, reduzir a corrupção, adotar a austeridade, reformar a previdência e liberar o espírito de iniciativa dos que querem empreender.
 
*José Pio Martins é economista e reitor da Universidade Positivo.

Share:

Latest posts

Aposentada Anete Langaro retomou atividades dias após realizar artroplastia total de joelho Créditos: Arquivo pessoal
Técnicas avançadas favorecem cirurgias menos invasivas em idosos
Tatielle Alyne, atleta de futebol feminino de 19 anos, tem difícil missão de lidar com uma lesão enquanto corre atrás de seus sonhos no esporte Créditos: Arquivo pessoal
Mulheres enfrentam maior risco de lesões em joelhos na prática de esporte
Espaços para prática da fé em hospitais são demonstração de respeito às necessidades de pacientes e familiares Créditos: Divulgação
Espaços para prática da fé e espiritualidade são aliados no tratamento e internações médicas

Sign up for our newsletter

Acompanhe nossas redes

related articles

Aposentada Anete Langaro retomou atividades dias após realizar artroplastia total de joelho Créditos: Arquivo pessoal
Técnicas avançadas favorecem cirurgias menos invasivas em idosos
Hospitais registram crescimento superior a 40% em procedimentos para pacientes acima de 70 anos; avanços...
Saiba mais >
Tatielle Alyne, atleta de futebol feminino de 19 anos, tem difícil missão de lidar com uma lesão enquanto corre atrás de seus sonhos no esporte Créditos: Arquivo pessoal
Mulheres enfrentam maior risco de lesões em joelhos na prática de esporte
Estudos indicam que chance é até oito vezes maior entre as jogadoras e o futebol é campeão nesse tipo...
Saiba mais >
Espaços para prática da fé em hospitais são demonstração de respeito às necessidades de pacientes e familiares Créditos: Divulgação
Espaços para prática da fé e espiritualidade são aliados no tratamento e internações médicas
Acolhimento se estende a pacientes, familiares e profissionais da saúde, com iniciativas perto de centros...
Saiba mais >
Grupo Marista
Presidente do Grupo Marista é nomeado chefe provincial da Província Marista do Brasil Centro-Sul
Nesta segunda-feira (25/03), o Irmão Vanderlei Siqueira dos Santos foi nomeado Superior Provincial da...
Saiba mais >