Valmir Hammes, head de ERP Complianc

ARTIGO: Reforma Tributária: maior risco pode não estar nos novos tributos, mas na confiança cega nos cálculos

*por Valmir Hammes, head de ERP Compliance e especialista em Legislação na Senior Sistemas

Durante anos, o debate sobre a Reforma Tributária esteve concentrado na simplificação do sistema, na substituição de tributos e nas novas regras de incidência. Mas, conforme a implementação se aproxima, um tema começa a ganhar relevância entre diretores financeiros, controllers e gestores tributários: a forma como as empresas irão validar aquilo que o próprio governo calcula.

A apuração assistida representa uma mudança importante no relacionamento entre Fisco e contribuinte. Pela primeira vez, o governo passa a apresentar uma apuração prévia dos débitos e créditos relacionados ao IBS e à CBS, reunindo os documentos fiscais conhecidos em suas bases. O conceito parece simples. O risco está justamente aí.

Há uma interpretação equivocada de que, se o governo calculou, basta aceitar o resultado. Não é assim. A responsabilidade pelo aceite continua sendo da empresa. Em outras palavras, a conta pode até chegar pronta, mas a responsabilidade pela sua conferência permanece com o contribuinte.

Esse talvez seja um dos aspectos menos debatidos da Reforma Tributária e, paradoxalmente, um dos mais críticos para a gestão financeira das organizações.

Imagine uma indústria, uma rede varejista ou um operador logístico que movimenta milhares, ou até milhões, de documentos fiscais por mês. Será razoável acreditar que alguém fará a conferência dessas informações manualmente? Será possível comparar documento por documento entre os registros internos e aqueles considerados pelo governo antes do fechamento da apuração?

A resposta é evidente: não. E o problema não é apenas operacional. É estratégico.

Qualquer divergência pode significar créditos tributários não aproveitados, débitos calculados incorretamente ou inconsistências que precisarão ser justificadas posteriormente. Em vez de prevenir problemas, a empresa passa a reagir a eles, muitas vezes quando o impacto financeiro já aconteceu.

Outro fator que amplia esse desafio é que a apuração assistida ocorrerá em ambientes distintos para CBS e IBS. Ainda que as regras sejam semelhantes, são sistemas independentes, exigindo que as organizações conciliem informações provenientes de múltiplas bases de dados antes de confirmar a apuração. Isso eleva significativamente a complexidade do processo, especialmente para empresas com diversas unidades, operações interestaduais e elevado volume de transações.

Nesse contexto, não é somente tributária, mas também de governança. Empresas que tratam a conciliação como uma tarefa acessória provavelmente descobrirão, tarde demais, que ela se tornou uma etapa essencial do controle fiscal. A nova lógica exige acompanhamento contínuo, identificação rápida de divergências e capacidade de agir antes do fechamento da apuração, não meses depois, quando o conflito já estiver instalado.

A tecnologia, portanto, sai da ideia de ser um diferencial competitivo e passa a ser fundamental, pois assume o papel de infraestrutura de conformidade. Não porque substitui o trabalho humano, mas porque torna possível aquilo que manualmente deixou de ser viável.

É importante compreender que essa necessidade não se restringe às maiores corporações. Quanto maior o volume de documentos, maior o desafio, mas praticamente todas as empresas submetidas ao novo modelo precisarão validar as informações apresentadas pelo governo antes de aceitar os valores apurados. Ignorar essa realidade significa assumir riscos em um ambiente que tende a ser cada vez mais automatizado e fiscalizado.

Talvez a maior mudança trazida pela Reforma Tributária não seja apenas a criação de novos tributos, mas a transformação da qualidade dos dados em um ativo estratégico para o negócio. 

No fim das contas, a pergunta que ficará para as empresas não será se elas conseguiram calcular corretamente seus impostos. Será se conseguiram comprovar que o cálculo estava correto antes de aceitá-lo.

*Valmir Hammes é head de ERP Compliance e especialista em Legislação na Senior Sistemas

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