A reputação em tempos de “tapa-buraco”: construindo arranha-céus em terrenos pantanosos

Investir na construção de uma reputação sólida parece óbvio, mas poucos entendem os riscos de atalhos e soluções rápidas

No universo corporativo e na imagem pessoal, edifica-se uma verdade tão sólida quanto o concreto armado: a reputação é um arranha-céu. São anos, por vezes décadas, para assentar suas fundações, calcular estruturas, pacientemente, andar por andar, construir algo que inspire confiança e admiração. Contudo, basta um tremor, um cálculo errado, uma falha estrutural ignorada para que a obra venha ao chão em questão de segundos. E, na era da infodemia, o terreno nunca esteve tão instável.

Vivemos a epidemia da maquiagem, da solução paliativa, do “jeitinho” que mascara a incompetência. É a cultura da “massinha tapa-buraco”. Aparece uma rachadura na parede da imagem pública? Ignora-se a fundação comprometida e aplica-se uma camada de tinta fresca, acompanhada de um discurso ensaiado de relações públicas. O produto é de terceira categoria, mas a embalagem é reluzente e a campanha de marketing, agressiva. Ou vem aquela ideia genial: “Vamos contratar aquele influenciador para jurar de pés juntos que a estrutura é sólida.” Enquanto isso, o reboco já está esfarelando…

Essa mentalidade de curto prazo, de receitas e fórmulas milagrosas, essa aversão ao trabalho árduo e à matéria-prima de qualidade, é receita para o desastre. Assim como um prédio construído com areia de praia e vergalhões finos ou enferrujados não resiste à primeira tempestade, uma reputação erguida sobre a mentira e a omissão está fadada a ruir — lentamente ou rapidamente, a depender do “clima”. 

Atualmente, a ventania atende pelo nome de desinformação. Basta uma brisa mais forte —  um cliente insatisfeito, um ex-funcionário ressentido, uma fake news bem arquitetada — para iniciar um furacão, por vezes de proporções catastróficas, nas redes sociais. Nesse ecossistema tóxico, a verdade é um detalhe inconveniente e a velocidade da difamação é infinitamente superior à da retratação. A “justiça” do tribunal digital é sumária e, na maioria das vezes, cega.

E é aqui que a qualidade da construção faz a diferença entre a sobrevivência e o esquecimento. Uma marca com reputação sólida, com raízes profundas como as de uma sequoia, pode balançar violentamente durante a fúria do furacão digital, mas suas bases, fincadas na ética, na transparência e na entrega consistente de valor com uma estratégia de comunicação profissional e assertiva a manterão de pé. As rachaduras podem até aparecer, mas a estrutura não colapsa.

Da mesma forma, um carro bem construído, com engenharia robusta e materiais de primeira linha, aguentava os solavancos e as crateras da “estrada da vida”. Pode amassar, arranhar, mas permanece confiável. Já o veículo montado com peças baratas e planejamento de fundo de quintal deixa na mão na primeira viagem mais longa. A sua marca é um tanque de guerra ou um carrinho de plástico?

A ilusão de que é possível “gerenciar” a reputação apenas com respostas prontas e ferramentas de monitoramento de redes sociais é um dos maiores engodos da atualidade. Cuidar da reputação exige a mesma seriedade e o mesmo profissionalismo de um engenheiro que projeta uma ponte. Exige arquitetos de marca que entendam que cada ação, cada produto, cada comunicado, cada post ou vídeo, cada interação com o cliente e com a imprensa é um tijolo a ser assentado. E exige uma equipe de manutenção constante, atenta e profissional, pronta para reparar as inevitáveis fissuras antes que se transformem em brechas irreparáveis.

Neste cenário de informação desenfreada e desconfiança crônica, investir na construção de uma reputação genuína e resiliente deixou de ser questão de vaidade ou  diferencial de mercado. Tornou-se, de forma crua e inadiável, questão de sobrevivência. Tentar economizar em matéria-prima de qualidade e contratar “pedreiros” amadores para erguer a imagem é o mesmo que construir seu império sobre um pântano. A vista de longe — ou nos ppt’s — pode até ser bonita por algum tempo, mas tudo pode afundar na primeira chuvinha.

Por Claudio Stringari 

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