Por Maria Angélica Parmigiani
“O despertador toca. Eu não levanto. Antes mesmo de abrir os dois olhos, meu polegar já abriu três aplicativos.” Você conhece essa pessoa? Muito provavelmente ela é você. Sou eu. Somos muitos de nós em nosso ritual da hiperconectividade. Mas o que estamos buscando quando tocamos a tela antes mesmo de tocar o chão? Aliás, será que estamos buscando algo ou só adquirimos um hábito estranho?
J.O.L.O talvez seja a resposta. “Joy of Logging Off”, que significa a alegria de se desconectar. Calma, não se trata de romantizar uma vida eremita sem Wi-Fi. Trata-se de encontrar uma relação mais intencional e saudável entre presença real e digital. De viver o real sem interferências. Acordar com calma, ter hobbies, apreciar os encontros, descansar, conviver com a natureza ou simplesmente ler um livro.
Esse movimento, antes mesmo de virar sigla, já vem ganhando força há alguns anos, segundo a curadoria de tendências mundiais, WGSN. Não é à toa, o Brasil está entre os países que passam mais tempo conectados: mais de 8 horas por dia, em média. Há estudos que apontam que a cada dez minutos de tela, sete são para redes sociais. Coincidentemente, também figuramos entre os países mais ansiosos do mundo. Se parte do tempo é designado ao trabalho e a outra parte a dormir, o que estamos fazendo com o restante? E se você respondeu que anda de bicicleta, lê livros e pratica yoga, mas seu relatório semanal mostra 8 horas e meia de celular por dia, então esse texto ainda é para você.
O off-line voltou.
E, ironicamente, virou item de luxo.
Mas não se trata de usar ou não. O nosso smartphone é um aliado para resolver muitas demandas. A questão é outra: como usar e o quanto usar. Estamos tendo algum senso crítico no scroll? Porque esse é o maior problema: podemos ser muito disciplinados, mas é extremamente fácil retomar o hábito e passar horas deslizando o dedo antes de dormir. Como todo novo hábito, “estar off” precisa ser praticado repetidamente. Deixar o celular na bolsa. Fazer um pacto com os amigos. Estar inteiro na conversa. Não levar o celular para o quarto. Ou simplesmente: escolher não usar. Depois de alguns testes, percebi algo na minha própria experiência: o problema não é apenas quanto tempo passamos nas telas. É com o que estamos ocupando a nossa atenção quando estamos ali. E convenhamos: a gente vai estar ali.
E quando estamos, algo curioso acontece. Quantas vezes você já se pegou vendo conteúdos e, de repente, sentiu ansiedade, melancolia, agitação? Às vezes, é tão rápido que a gente nem sabe de onde veio, outras vezes, a gente fica intoxicado de ver a notícia ruim tantas vezes. Esse desejo por mais presença e menos ruído digital não passou despercebido. O marketing, é claro, já percebeu o movimento. Grandes marcas têm investido em experiências físicas, espaços sensoriais, momentos de bem-estar e conexão real. Estar só on-line não basta. Apostam no encontro, na memória afetiva, em despertar os sentidos e em tudo o que acontece fora da tela. O tempo de qualidade voltou a ter valor simbólico. A newsletter ganhou atenção novamente como forma de comunicação mais efetiva, a mídia off está se reinventando. Experiências boas geram bem-estar, que por sua vez gera conexão entre pessoas e marcas.
Mas o J.O.L.O não está só para o Marketing; ele está para nós e para a qualidade de vida que queremos ter, e que depende diretamente das nossas escolhas (e também das escolhas para as nossas crianças e adolescentes). Sim, escolher. Ao me aprofundar no tema, entendi que é muito bom estar desconectada, mas quando estou conectada, o uso parece quase descontrolado, impulsivo e curiosamente, passivo. O algoritmo segue ali, mapeando tudo, mas a gente não precisa estar ali no automático.
Então, deixo aqui algumas perguntas simples, não como regra, mas como convite para repensar a qualidade da nossa presença on-line e resgatar o equilíbrio com o off-line:
- Quais aplicativos me tomam mais tempo, por que?
- Posso desativar notificações dos apps que mais uso?
- Existem pessoas ou perfis que me despertam mais agitação, ansiedade do que realmente satisfação por ter acesso às informações?
- Dá para fazer uma limpa em quem sigo, sem medo do que vão pensar?
- Se minha rede social fosse menor e mais restrita, eu seria mais feliz?
- Fiquei 2 horas no Instagram, como estou me sentindo? Há algo que eu possa fazer com essas horas e que seria mais satisfatório para mim? E por que fico com preguiça quando penso em fazer algo diferente?
- Tenho treinado minha capacidade de filtrar conteúdos pesados que não quero ver ou, por curiosidade, acesso tudo?
- Isso é realmente urgente?
- Faz sentido ficar no WhatsApp Business até tarde? Posso anotar e deixar para o outro dia?
- Será que eu estou invadindo o momento off de alguém com mensagens?
- Esse grupo está me fazendo bem ou só estou ali porque tenho vergonha de sair?
- Ao compartilhar tantos conteúdos com as pessoas: já perguntei se elas querem tudo isso? Eu quero?
Eu comecei este texto achando que falaria sobre tudo o que podemos fazer quando estamos off-line. Mas isso vocês já sabem. Então mudei a rota.
Afinal, se a atenção é a moeda mais disputada do nosso tempo, onde você está investindo a sua? Talvez seja hora de praticar mais J.O.L.O.