Por Lorena Nogaroli
As crises não pedem licença para atravessar fronteiras. Pandemias, colapsos ambientais, escândalos corporativos e ondas de desinformação digital não respeitam limites geográficos. É o retrato das chamadas crises transfronteiriças (transboundary crises), que não se restringem a territórios, setores ou causas isoladas. Elas revelam o quanto o mundo está interligado — e vulnerável.
Diferentemente das crises comuns, muitos eventos atuais afetam simultaneamente múltiplos sistemas: saúde, economia, meio ambiente, política e cultura. O impacto é cumulativo e a resposta exige, mais do que planos de contenção, um novo olhar para o funcionamento das instituições. A pandemia de Covid-19 desnudou a fragilidade das redes globais. O escândalo Dieselgate corroeu a confiança em pilares como a sustentabilidade e a transparência corporativa. Ambos expuseram uma verdade incômoda: improvisar sob pressão custa caro.
Mesmo desastres aparentemente locais, como o rompimento da barragem de Mariana, alcançam dimensões internacionais. O prejuízo não é apenas ambiental — é reputacional, regulatório e ético. Em resposta, a governança não pode mais ser entendida como uma hierarquia vertical. Precisa ser articulada, multinível, capaz de conectar o local ao global com coerência e agilidade.
Essas crises também desestabilizam um dos pilares mais frágeis da ação institucional: o tempo. Pressionados por decisões urgentes e com incertezas crônicas, os gestores são desafiados não apenas pela complexidade dos fatos, mas também pela dispersão dos atores envolvidos. São múltiplos os centros de decisão, as vozes, os interesses — e quase sempre, os conflitos. Agências, governos, empresas e a sociedade civil precisam falar entre si antes de falar ao público.
Resiliência: mais do que sobrevivência
A resposta eficiente não está apenas nos protocolos. Está na capacidade de antecipar riscos, de simular cenários, de reagir com empatia e coerência. Para as instituições, isso significa investir em comitês multidisciplinares, atualizar continuamente os planos de crise e fortalecer a cultura interna de prevenção. No plano individual, resiliência é estar preparado para viver o imprevisível com lucidez — o que exige muito mais do que discursos motivacionais.
Redes de apoio, acesso confiável à informação, recursos mínimos de segurança e autonomia decisória são componentes essenciais dessa resiliência. Em vez de adotar uma lógica de guerra ou de escassez, a preparação para crises precisa afirmar a dignidade como princípio e a solidariedade como método.
Comunicação como ato político
Em contextos transfronteiriços, a comunicação deixa de ser um acessório para se tornar um instrumento estratégico de governança. Tempo, tom e transparência não são apenas boas práticas: são elementos constitutivos da reputação e da confiança pública.
Discursos defensivos, ambíguos ou desumanizados tendem a agravar a crise. Ignorar críticas ou subestimar o sofrimento alheio não é apenas um erro técnico — é uma falha ética. A comunicação precisa estar alinhada aos valores da organização, ser sensível aos impactos da crise e estar aberta ao diálogo real com os diversos públicos envolvidos. Isso exige escuta ativa, análise de dados, capacidade de adaptação e, sobretudo, disposição para reconhecer erros.
Para além do previsível
O mundo não voltará a ser previsível. E talvez isso nem seja desejável. A busca por controle absoluto — seja por meio de tecnologias, regulamentos ou narrativas — tende a falhar diante da complexidade dos sistemas interdependentes. O desafio não é “prever” a próxima crise, mas construir instituições que resistam, aprendam e se reinventem a partir dela.
Sobreviver à crise já não é suficiente. É preciso sair dela com mais senso de comunidade, mais humildade institucional e mais responsabilidade compartilhada. Afinal, a reputação que realmente importa não é aquela que se mede em relatórios, mas a que se constrói na prática — quando ninguém está olhando.