Onde o futuro entrou na lei

Por Lorena Nogaroli


Ao escolher retornar a Cardiff para passar o primeiro fim de semana de 2026, fui tomada por uma sensação curiosa: a de estar em um lugar que não vive apenas do peso da própria história, mas que decidiu, conscientemente, assumir responsabilidade pelo futuro. Caminhar por uma capital que abriga castelos medievais, ruínas romanas e, ao mesmo tempo, uma das legislações mais avançadas do mundo em sustentabilidade é um lembrete poderoso de que tradição e inovação não são opostos. Podem — e talvez devam — caminhar juntas.

Foi aqui, no País de Gales, que nasceu em 2015 a Lei das Gerações Futuras (Well-being of Future Generations Act), uma política pública que antecedeu boa parte do debate global sobre ESG e que hoje se revela mais atual do que nunca. Enquanto empresas, governos e investidores buscam referências concretas para transformar discurso em prática, Gales oferece algo raro: um modelo institucional que tornou o futuro um critério legal de decisão no presente.

A lógica da lei é simples, mas profundamente disruptiva. Toda política pública galesa precisa considerar seus impactos de longo prazo e contribuir para objetivos claros de bem-estar econômico, social, ambiental e cultural. Não se trata de um compromisso simbólico ou de uma diretriz genérica. Trata-se de uma obrigação legal que atravessa orçamento, planejamento, comunicação e prestação de contas. Em outras palavras, o que muitos relatórios ESG prometem, Gales decidiu exigir.

Esse ponto é crucial para o debate brasileiro. No Brasil, o ESG ainda é frequentemente tratado como agenda voluntária, associada à reputação, ao acesso a capital ou ao posicionamento de marca. Em Gales, ele foi incorporado à engrenagem do Estado. A consequência é uma mudança estrutural: políticas deixam de ser avaliadas apenas pelos resultados imediatos e passam a ser julgadas pelo impacto acumulado ao longo do tempo. O curto prazo deixa de ser soberano.

A Lei das Gerações Futuras também introduziu uma inovação institucional pouco debatida por aqui: a criação de uma Comissária das Gerações Futuras, responsável por questionar decisões públicas que comprometam o amanhã. Sem poder de veto formal, mas com enorme peso político e reputacional, essa figura funciona como uma espécie de guardiã ética do futuro. Em tempos de crescente desconfiança nas instituições, esse mecanismo de accountability moral é tão relevante quanto qualquer instrumento regulatório.

O impacto dessa política vai além do setor público. Empresas que fornecem para o Estado galês passaram a ser avaliadas por critérios alinhados aos objetivos de bem-estar. Cadeias produtivas, contratos e parcerias foram pressionados a incorporar práticas mais responsáveis. Na prática, a lei fortaleceu a dimensão de governança do ESG e reduziu o espaço para o greenwashing. Não basta comunicar propósito; é preciso demonstrar impacto.

Outro aspecto que chama atenção é o efeito da lei sobre a comunicação institucional. Em Cardiff, a narrativa pública deixou de ser centrada em anúncios pontuais e passou a explicar por que determinadas escolhas importam para as próximas décadas. É uma comunicação menos promocional e mais pedagógica, orientada a criar entendimento social sobre decisões difíceis, como priorizar transporte público em vez de grandes obras viárias ou investir mais em prevenção em saúde do que em tratamentos.

Ao revisitar Cardiff, ficou claro que essa região compreendeu algo que ainda resistimos a aceitar: o futuro não é um tema abstrato, é uma variável de gestão. Incorporá-lo às decisões exige coragem política, maturidade institucional e disposição para enfrentar custos no presente em nome de ganhos coletivos no longo prazo.

Para o Brasil, que enfrenta desafios profundos de desigualdade, crise climática e instabilidade institucional, o exemplo galês não é um modelo a ser copiado mecanicamente, mas uma provocação necessária. O ESG, se quiser ser mais do que uma sigla da moda, precisará migrar do campo da intenção para o da estrutura. Precisará deixar de depender apenas da boa vontade de lideranças e passar a ser sustentado por políticas públicas robustas e coerentes.

Talvez seja essa a principal lição que Cardiff oferece. Construir o futuro não é um exercício de futurologia, mas uma escolha política cotidiana. E quanto mais cedo compreendermos isso, maiores serão as chances de não legarmos às próximas gerações apenas relatórios bem escritos, mas um país efetivamente mais justo, resiliente e sustentável.

 

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