A lição que sabemos de cor, mas nos custa aprender

[flgallery id=1879 /]
Daniel Medeiros*

O Ministério da Educação publicou os dados do Sistema de Avaliação da educação Básica (Saeb), referentes ao ano de 2017. Pela primeira vez, o MEC apresentou os dados em uma escala de valores de 0 a 9 – sendo que de 0 a 3, o conhecimento é insuficiente; de 4 a 6, básico; e de 7 a 9, adequado. Pois bem: o Ensino Médio foi classificado no nível 2 de proficiência. Na série histórica, o quadro é o mesmo de 2009. Em matemática, a média de pontos conseguiu, inclusive, ficar pior do que há 8 anos.
Um pouco mais de informações: nenhum Estado da federação alcançou a meta do Ideb para o Ensino Médio, que era de 4,4. São Paulo, inclusive, baixou. Também o Rio Janeiro e o Distrito Federal. As escolas particulares não vão mal, mas não vão bem. Se a média para passar de ano fosse 6, só as redes particulares de Minas Gerais, Espírito Santo, Santa Catarina e Distrito Federal teriam nota azul. Piauí, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul teriam de conversar com a professora e propor um trabalho extra, pois ficaram com nota 5,9.
Para o 9o ano do Ensino Fundamental, a média esperada era de 4,7 e foi de 4,4.  No entanto, no quinto ano do Ensino Fundamental, apenas quatro Estados não cumpriram as metas previstas: Sergipe, Amapá, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Os pequenos conseguem ir bem até o quinto ano. Quando ingressam no chamado Fundamental II, a coisa apura. No Ensino Médio, desanda.
E o que isso significa realmente? Que nossos jovens do Ensino Médio, na sua imensa maioria, não sabem destacar a ideia principal de um texto, ou interpretar um gráfico simples. Erram conta de mais. Trocam o S pelo Z, o P pelo B. Ou seja, em pouco tempo, os alunos do Ensino Fundamental saberão mais que os alunos do Ensino Médio. E o diploma, em vez de um carimbo do MEC, terá uma imagem do fundo do poço.
A pergunta que não quer calar é: por que isso acontece? E a resposta é simples, o que não quer dizer fácil: a escola não está gerando aprendizado. O aluno aprende algo em uma série, mas não está usando esse aprendizado na série seguinte. Daí esquece. E começa tudo de novo e, então, aprende outras coisas, mas não aprofunda, não consolida, não sedimenta conhecimento nenhum. Tudo fica ali, na superfície, nas duas primeiras linhas. E quando o jovem é apresentado a um desafio que exija a mobilização das suas aprendizagens, como quem usa ferramentas para consertar ou inventar algo, ele estaca. Dá “tilt”.
E como gerar aprendizado? Em primeiríssimo lugar, pela literacia. Se não soubermos ler e compreender os signos da nossa cultura, nunca poderemos cultivar nada. Somos humanos porque nos inventamos por meio de nossas mãos e nossas palavras. Desde milhares de anos, fazemos e ensinamos aos outros como se faz e, então, os que aprendem, ensinam sem precisar mais fazer, por meio das palavras. As palavras permitem a multiplicação do aprendizado sobre as obras dos homens e mulheres no mundo. Se não soubermos utilizar com desenvoltura e familiaridade a linguagem, nada será possível. Nem a matemática, nem a física, nem a química, pela razão óbvia de que seu aprendizado depende fundamentalmente da língua materna.
Faço coro ao que afirmava Roland Barthes: “se tivesse que deixar uma única disciplina para ser ensinada na escola, escolheria a Literatura”. Pois se compreendemos como as pessoas falam do mundo e como explicam o mundo, como o resumem, como o enfrentam com as palavras, como buscam decifrá-lo e transformá-lo, saberemos como fazer todo o resto, pois que compreenderemos. Mas sem a ferramenta mestra da linguagem e da compreensão, quando muito pescaremos um peixinho magro que só servirá para lembrar de nossa fome e de nossa incapacidade de viver na beira de um rio caudaloso.  “Minha Pátria é minha língua”, já dizia o poeta. Sem saber ler e compreender o que se lê, somos como os cegos do Saramago : “cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem”.
 
*Daniel Medeiros é Doutor em Educação Histórica pela UFPR, consultor de conteúdos da área de Humanidades e professor no Curso Positivo.

Share:

Latest posts

Divulgação
Grupo Tacla lança Optimall e entra no mercado de tecnologia promocional
Divulgação City Center Outlet Premium
Litoral ou interior? Quatro dicas de passeios próximos a Curitiba para aproveitar o verão
Carolina Ferraz
Férias no Ventura Shopping têm programação gratuita para crianças com temática "Pequenos Piratas"

Sign up for our newsletter

Acompanhe nossas redes

related articles

Divulgação
Grupo Tacla lança Optimall e entra no mercado de tecnologia promocional
Plataforma criada a partir da operação dos 12 shoppings do conglomerado integra tecnologia, dados e experiência...
Saiba mais >
Divulgação City Center Outlet Premium
Litoral ou interior? Quatro dicas de passeios próximos a Curitiba para aproveitar o verão
Paraná reúne atrativos para quem procura aventura, descanso e boas compras na estação mais quente do...
Saiba mais >
Carolina Ferraz
Férias no Ventura Shopping têm programação gratuita para crianças com temática "Pequenos Piratas"
O Ventura Shopping preparou uma programação especial e gratuita para animar as férias escolares da criançada....
Saiba mais >
Divulgação Shopping Palladium
VR Play inicia operação no Shopping Palladium Curitiba
Maior arena de realidade virtual do país dedicado à cultura gamer traz experiências imersivas e tecnologia...
Saiba mais >