Opinião: Zumbi e o Dia Nacional da Consciência Negra

[flgallery id=3584 /]

Precisamos despertar as consciências adormecidas para a grande importância do Dia Nacional da Consciência Negra. Devemos, por meio do compromisso ético- crítico que assumimos com as novas gerações, denunciar a tentativa perversa de alguns revisionistas de desvalorizar a figura de Zumbi dos Palmares e de enfraquecer os movimentos de resistência contra as nefastas consequências do racismo estrutural.

A poesia abolicionista foi um exemplo digno da resistência no campo literário contra um sistema escravocrata repleto de horrores e exploração que durou mais de três séculos e meio no Brasil. Sem dúvida, as relações escravistas foram bastante complexas e deixaram inúmeras sequelas políticas, econômicas, sociais e culturais, sendo que o racismo estrutural precisa ser urgentemente compreendido e combatido na atualidade. Uma grande questão se apresenta: como combater as forças reacionárias que insistem na manutenção da lógica de exploração e de preconceito no Brasil? Sabemos que a discriminação contra o negro está entranhada na nossa sociedade desde os tempos do Brasil colonial. Portanto, o racismo estrutural resulta de um processo histórico, político, social, cultural e econômico repleto de grandes contradições e de incoerências abissais. A herança da escravidão é maldita. Trata-se de uma mácula que envergonha o nosso país e requer urgentemente a formação de consciências críticas.

Os que rejeitam o processo de ampliação e valorização da Consciência Negra tentam desqualificar Zumbi com argumentos que não podem ser comprovados documentalmente por meio de registros históricos. Zumbi simboliza a luta pela emancipação, pela liberdade e pela defesa dos direitos da população afrodescendente. Sabemos que a figura de Dom Pedro I simboliza a independência do Brasil por meio do “grito do Ipiranga”, e entendo que é justo. Contudo, convém destacar que o referido imperador não foi questionado pelos pretensos revisionistas em razão do seu comportamento social impulsivo e descomedido, ou seja, Dom Pedro I se envolveu em inúmeros escândalos, mas ninguém ousou propor o fim das comemorações do dia 7 de setembro. Outrossim, sabemos que Tiradentes não lutou por um processo amplo de libertação de todo o território colonial do jugo português, mas não se vê ninguém vociferando em favor da anulação do seu título de Patrono da nação brasileira. Então, por que questionar Zumbi dos Palmares? Devo esclarecer que o símbolo se projeta numa dimensão imensuravelmente maior do que a figura humana por ele representada.

Vale ressaltar que nossa identidade nacional foi construída a partir da multiculturalidade étnica, das diferentes formas de linguagem que se entrecruzaram historicamente, da religiosidade, do folclore, da culinária, da memória, do imaginário popular, da musicalidade, da dança e das demais expressões artísticas-culturais. Nesse Dia Nacional da Consciência Negra, devemos reconhecer com orgulho que os escravos negros tiveram papel importantíssimo na composição identitária brasileira. Ao contrário do que deveria acontecer, percebe-se o crescente avanço de grupos reacionários, agressivos e fanatizados que se declaram contrários ao estabelecimento de políticas reparadoras baseadas em quesitos raciais. Argumentam com veemente reducionismo que a exclusão social no Brasil não é determinada pela cor da pele, mas pela pobreza, ao passo que as estatísticas provam que a realidade é bem mais complexa. Por exemplo, o Atlas da Violência apurou que 75% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. E o que dizer do acesso à educação, saúde, postos de trabalho, remuneração justa, moradia, saneamento básico e a outros direitos essenciais? Todos os indicadores comprovam de forma cabal que a população negra tem menos oportunidades do que a população branca em todas as esferas da sociedade brasileira. O racismo estrutural está presente no Brasil contemporâneo e resulta de um percurso sócio-histórico caracterizado pela exploração da mão-de-obra escrava, incluindo todo o legado de dominação, de horror, de sofrimento, de exploração e de arbitrariedades da escravidão.

A concentração do poder político e econômico nas mãos de uma elite irresponsável e perversa impediu ao longo da história o processo de inclusão dos afrodescendentes. O Brasil nunca foi uma democracia racial. O racismo estrutural precisa ser reconhecido e combatido pelas instituições democráticas para que prevaleça a cidadania e o bem comum. Viva Zumbi do Palmares! Viva a Consciência Negra!

Antonio Artequilino é Historiador, mestre em educação, doutor em linguística, professor, escritor, poeta e consultor pedagógico da Conquista Solução Educacional.

Share:

Latest posts

Ganhador-poupanca-cianorte - -Jhon-Marlon-Feltrin-Prodentes - -eletricista-industrial (1)
Sicredi já distribuiu mais de R$ 3 milhões em prêmios para estimular o hábito de poupar
LORD-KRONY
Hard Rock Cafe Curitiba recebe espetáculo em homenagem a Freddie Mercury e o Queen
Bem-estar (1)
Bem-estar emocional como foco no ambiente de trabalho: mudanças na NR-1 colocam a saúde mental como pilar essencial nas estratégias corporativas

Sign up for our newsletter

Acompanhe nossas redes

related articles

Ganhador-poupanca-cianorte - -Jhon-Marlon-Feltrin-Prodentes - -eletricista-industrial (1)
Sicredi já distribuiu mais de R$ 3 milhões em prêmios para estimular o hábito de poupar
Mais de 400 associados já foram contemplados em 2026 na campanha Poupança Premiada, que segue até dezembro...
Saiba mais >
LORD-KRONY
Hard Rock Cafe Curitiba recebe espetáculo em homenagem a Freddie Mercury e o Queen
Freddie-Verso, apresentado por Lord Krony, reúne clássicos da banda em noite dedicada ao legado do cantor O...
Saiba mais >
Bem-estar (1)
Bem-estar emocional como foco no ambiente de trabalho: mudanças na NR-1 colocam a saúde mental como pilar essencial nas estratégias corporativas
Modelo cooperativista se destaca pelo pioneirismo em ações voltadas ao bem-estar emocional dos colaboradores O...
Saiba mais >
*por Juliana Maria - head de Produtos HCM na Senior Sistemas Existe uma força de trabalho em transformação, e as habilidades necessárias para atuar em um mundo permeado por IA ainda estão sendo construídas — muitas delas nem sequer possuem nome ou classificação formal em códigos ocupacionais. Apesar da velocidade de adoção, existe uma contradição: o volume de investimento em IA nas empresas é desproporcional aos resultados efetivamente colhidos. Parte do problema está em tentar aplicar IA a processos que já não fazem mais sentido, em vez de repensar os fluxos de trabalho antes de automatizá-los. 88% das organizações usam IA em ao menos uma função, mas apenas 39% reportam qualquer impacto no EBIT — e a McKinsey estima que ~75% dos cargos precisam de reformulação fundamental. A adoção aconteceu; o redesenho do trabalho, não. (dessa forma fica mais preciso) Em um cenário de transformações intensas, as skills humanas valem cada vez mais e abre-se uma janela de oportunidade para o desenvolvimento de times. De acordo com o World Economic Forum, 170 milhões de empregos serão criados até 2030, e 39% das habilidades essenciais exigidas mudarão até 2039. Cinco habilidades essenciais Mas quais, de fato, devem ser desenvolvidas? A partir de um grande debate com IAs e ouvindo a realidade de centenas de gestores de RHs, mapeei cinco que considero mais importantes para qualquer função que envolva o uso de inteligência artificial — não apenas para times técnicos: Pensamento crítico e julgamento analítico A IA é forte em análise, mas o julgamento continua sendo humano. Por exemplo, um agente de workforce pode gerar uma lista fria de colaboradores com mais faltas em determinado período. Sem uma camada de julgamento humano, essa lista pode levar a decisões equivocadas — como o desligamento de alguém que, na verdade, enfrenta uma situação pessoal delicada, mas continua entregando resultados. Por isso, a recomendação é que áreas de RH construam camadas de governança e diretrizes para orientar o uso responsável dessas ferramentas. Literacia em IA e Engenharia de Contexto Poucas pessoas hoje sabem responder com precisão o que a IA é capaz — ou não — de fazer, já que as capacidades mudam constantemente. Acompanhar essa evolução é tarefa árdua, porém essencial. Mais do que a engenharia de prompt, é a engenharia de contexto: a habilidade de estruturar informações em camadas, criar arquivos de contexto reutilizáveis e desenvolver "skills" específicas para que os agentes não precisem repetir instruções a cada interação. Como exemplo, temos agentes recrutadores que recebem o contexto e o repassam a agentes de ATS, responsáveis por processá-lo e estruturar as competências técnicas e as responsabilidades das vagas com muito mais detalhe. Isso cria uma camada adicional que permite diferenciar candidatos de forma mais precisa. O resultado são descrições de vagas mais ricas, construídas a partir do contexto sobre o ambiente de trabalho e o perfil do time — e não apenas uma lista de requisitos técnicos —, combinando a precisão da IA com o tom de voz da marca empregadora. Adaptabilidade e visão sistêmica Enquanto a gestão tradicional segue listas fragmentadas de tarefas, profissionais com essa competência — independentemente do cargo ou nível hierárquico — questionam se um processo pode ser automatizado ou simplificado, avaliam as interdependências entre áreas e como a automação pode trazer ganhos em produtividade, em vez de simplesmente executá-lo como sempre foi feito. O Gestor AI First foca na visão sistêmica, o engajamento e desenvolvimento do time. Empatia e inteligência emocional Apesar de não ser um conceito novo, essa competência ganha nova relevância no contexto da IA. Ferramentas podem gerar planos de desenvolvimento individual (PDI) com base em dados históricos, mas cabe à liderança humana avaliar se aquele plano realmente conversa com as expectativas e o momento de vida de cada colaborador. Num mundo cada vez mais inundado de dados e estatísticas, e mais do que isso, super acelerado, é essencial saber ouvir, estar próximo, essas habilidades essencialmente humanas ganham força. Dentro desse cenário, é importante fortalecer os vínculos de mentorias, comitês, guildas e grupos que possam apoiar o RH no trabalho de redesenhar a estrutura organizacional, rever processos, reavaliar políticas e como vamos falar a seguir: construir a governança Governança, ética e responsabilidade A tecnologia tem moral, e cabe ao profissional de RH atuar como o curador ético dos algoritmos, garantindo que decisões automatizadas promovam equidade e não perpetuem vieses históricos. Com isso, a criação de áreas dedicadas a mapear o uso de IA dentro das empresas — quais ferramentas, modelos abertos ou fechados, e para quais finalidades estão sendo usados, torna-se fundamental. Mais do que tratar o tema como risco, é necessário transformá-lo em cultura organizacional, com curadoria de boas práticas, compartilhamento de conhecimento entre áreas e revisão contínua de segurança de dados. Líderes e gestores de RH não serão mais avaliados apenas por resultados entregues, mas também pela sua capacidade de preparar os times para o que vem a seguir. Essa sempre foi uma expectativa da liderança — o que muda agora é que existem métricas e ferramentas concretas para acompanhar esse preparo, e isto precisa entrar definitivamente na rotina de desenvolvimento das equipes. *por Juliana Maria - head de Produtos HCM na Senior Sistemas
ARTIGO: Mentalidade AI First: cinco skills fundamentais para os gestores de RH desenvolverem ainda este ano
*por Juliana Maria – head de Produtos HCM na Senior Sistemas Existe uma força de trabalho em...
Saiba mais >