Vendedor de carros passa por cirurgia rara e minimamente invasiva de retirada de tumor cerebral pelo SUS

Dois meses. Esse foi o tempo em que Cláudio Adriano Bittencourt, de 45 anos, sentiu dores de cabeça em um quadro de sinusite. Sangramento no nariz e manchas na visão começaram a aparecer. Foi quando decidiu que era hora de procurar um médico e, ao realizar a ressonância magnética na investigação do caso, descobriu um tumor maligno de incidência rara, com o nome de Estesioneuroblastoma. A lesão começava no nariz, passava por trás do olho esquerdo e chegava às proximidades da região cerebral. O próximo passo – decidido em menos de um mês de intervalo – foi a cirurgia de alta complexidade realizada de forma minimamente invasiva. 

Foram pouco mais de 90 dias entre os primeiros sintomas, a descoberta de uma lesão extremamente grave e rara e a definição do tratamento. O procedimento cirúrgico, realizado no Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba (PR), foi feito 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Vendedor de automóveis, de União da Vitória, no Paraná, a vida de Cláudio foi salva pela agilidade do hospital, por equipes de neurocirurgia e otorrinolaringologia de excelência e pela disponibilização de um aparelho de alta tecnologia para a intervenção.

Além da raridade do tumor, o procedimento todo foi inédito na história do hospital e foi a  primeira vez que a equipe médica realizou uma cirurgia de tamanha complexidade. Segundo o neurocirurgião Carlos Alberto Mattozo, esse tipo do tumor tem incidência imensamente baixa, de cerca de 1 caso para 1 milhão de pessoas. De acordo com Mattozo, em mais de 20 anos de carreira, ele presenciou somente dois casos como esse. 

E a cirurgia minimamente invasiva só pôde ser realizada por conta de um aparelho de alta tecnologia. “A composição da equipe e as ferramentas necessárias são difíceis de conseguir nos hospitais, ainda mais quando pensamos em SUS. Para que tudo fosse possível, utilizamos um instrumento de tecnologia avançada e que, naturalmente, tem um custo elevado, além de ser restrito para locação e para pacientes de convênios particulares. Mas, nesse caso, tivemos a sorte de obtermos equipamentos de ponta para fazer o procedimento”, explica o médico. 

Recuperação rápida depois do susto

Cláudio comenta que levou um susto ao descobrir o tumor. Relembra que teve uma dor de cabeça e, em pouco tempo, se viu diante de algo complexo que nunca imaginava. “Foi tudo muito rápido e inesperado. Eu me sinto muito grato por ter conseguido realizar essa cirurgia e, principalmente, da forma como foi. Ágil, com equipamento de primeira e excelentes médicos. Muita gratidão pela descoberta e solução do problema de forma tão rápida. Salvaram a minha vida”, se emociona.

Quatro dias depois do procedimento, o vendedor já conseguiu voltar para casa, onde vai finalizar seu processo de recuperação. Menor tempo de hospitalização, retorno mais rápido às atividades cotidianas e menor índice de infecção. Esses são justamente alguns dos benefícios de cirurgias realizadas de maneira minimamente invasiva. “É normal o paciente ter receio e medo de passar por essas intervenções, ainda mais quando se trata de uma operação complexa. No entanto, com o avanço da medicina aliada à tecnologia, se tornou possível executar esses procedimentos da maneira mais segura possível e ainda refletir no pós-operatório”, afirma o gerente médico do hospital, José Augusto Ribas Fortes. “Além disso, a cirurgia de rápida recuperação faz com que a permanência na UTI seja reduzida, o que é um alívio no contexto de pandemia, que pressiona o sistema de saúde como um todo, pela superlotação dos leitos”, complementa. 

Procedimento

A proposta complexa da cirurgia foi realizar a retirada do tumor pelo nariz. Para tal técnica, as equipes médicas de neurologia e otorrinolaringologia do hospital entraram com uma câmera de vídeo pela narina. Para dar sequência ao processo, foi utilizado um equipamento chamado shaver, com um tipo de ponteira. “No final dessa ferramenta tem uma ‘espécie’ de triturador, que é extremamente útil para conseguir tirar rapidamente essa parte do tumor nasal”, salienta. 

A cirurgia durou seis horas e foi um sucesso. “O nosso trabalho também é mostrar para as pessoas o que é possível fazer. Grande parte dos cirurgiões acabaria abrindo o crânio do paciente por cima, fazendo uma craniotomia, uma conduta muito invasiva e traumática. Mas nós retiramos o tumor exclusivamente pelo nariz, o que traz muitos benefícios, principalmente na recuperação”, finaliza Mattozo.

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