Artigo: Educação inclusiva: onde estamos falhando?

Nelly Narcizo de Souza*

Mais de vinte anos depois da Declaração de Salamanca e ainda não conseguimos construir contextos educacionais plenamente inclusivos.  Venho me perguntando e propondo essa reflexão sempre que possível: onde estamos falhando? Já caminhamos tanto em termos de legislação, como de conhecimento. E a pergunta sempre vem: como construir uma escola inclusiva?
Várias são as questões que se interpõem na tentativa de responder a essas perguntas. Primeiramente temos que destacar que não se faz inclusão por decretos; mas sem eles, sem o aporte da lei, pouco seria possível.  Em segundo lugar, não se faz inclusão educacional por descoberta de diagnósticos. Da mesma forma, sem eles não saberíamos qual é a especificidade de nosso alunado. Ainda, não se faz uma escola inclusiva apenas por vocação ou boa vontade. Foi-se o tempo em que poderíamos embasar a ação docente apenas com boa vontade; entretanto, sem tal dedicação talvez a frustração fosse ainda maior.  Como diria Paulo Freire, é preciso esperança para que a luta não feneça. Por outro lado, ouço muito a queixa da falta de conhecimento a respeito do assunto. Contudo, pode-se perceber que mesmo tendo algum conhecimento a respeito do público alvo da Educação Especial, também se vê diante de dificuldades. Claro, que sem o conhecimento adequado nossas ações estarão ainda mais limitadas.
Nesse sentido, podemos observar que em diferentes instâncias e momentos: não há uma fórmula única para construir uma escola inclusiva. É preciso a conjunção de inúmeros fatores. Além das indicações acima: legislação, acesso a diagnóstico o mais precocemente possível, conhecimento específico e boa vontade, ressalto que existem vários outros e, ouso destacar que os que mais chamam atenção são aqueles que envolvem a percepção e a crença que temos sobre as relações humanas, e como lidamos com os recursos humanos na escola.
Rosita Édler de Carvalho indica em um texto muito interessante que o conceito de diferença é construído na relação a outro: “Não percebo que sou diferente sozinho, é preciso que alguém me mostre isso e, com essa experiência vamos constituindo nossa identidade e autoconceito”. Ou seja, vamos percebendo se é bom ser diferente ou não, e quais os impactos da minha diferença nos contextos em que vivo.
Essa percepção é interessante, já que uma escola inclusiva deve ser construída por pessoas que promovem inclusão. Em outras palavras: sabem seu papel na promoção de relações mais humanas, mais afetivas, mais inclusivas. Falar de inclusão implica em falar de diferença e de como ela se destaca nas relações. Realizar uma sociedade mais inclusiva pede que tenhamos um olhar mais amplo para as pessoas, então saberemos fazer uso mais adequado de todos os recursos que estão dispostos (humanos, materiais ou legais).
Venho percebendo que projetos e experiências de sucesso no que compete a escolas e salas de aula mais inclusivas acabam trazendo como elemento comum a percepção de diferença e da relevância das relações humanas ali estabelecidas. Ouso dizer que quando enxergamos a pessoa antes da exaltação de sua “diferença”, “deficiência” ou “transtorno”, conseguiremos propor experiências e relações mais positivas em prol de uma escola mais inclusiva, aberta. Não pretendo simplificar a resposta à questão que iniciou esse texto, mas propor outras considerações a respeito. Considerações que evidencie o quão importante são nossas concepções sobre o ser humano, tão quanto os decretos que validam e garantem os direitos.
 
*Nelly Narcizo de Souza, doutora em Educação, especialista em Educação especial e inclusiva. É coordenadora da Pós-Graduação em Neuropsicologia Educacional e  Desenvolvimento Infantil da Universidade Positivo e professora da Graduação em Pedagogia.

Share:

Latest posts

AYOSHII - SOLAIA - -Foto-Gerson-Lima-146
A.Yoshii premia imobiliárias parceiras pelo sucesso de vendas em Curitiba do novo empreendimento Solaia Garden
Foto: divulgação
Pesquisa revela impacto das redes sociais no desempenho escolar e no sono dos estudantes
Paulistão Feminino ganha em 2024 o sobrenome e apoio do Sicredi, mais longevo patrocinador da Federação Paulista de Futebol Créditos: Divulgação
Feito histórico: Paulistão Feminino ganha naming rights do Sicredi e tem premiação recorde em 2024

Sign up for our newsletter

Acompanhe nossas redes

related articles

AYOSHII - SOLAIA - -Foto-Gerson-Lima-146
A.Yoshii premia imobiliárias parceiras pelo sucesso de vendas em Curitiba do novo empreendimento Solaia Garden
Imóveis de Primeira e Invictta Imóveis Especiais foram as vencedoras da noite A construtora A.Yoshii,...
Saiba mais >
Foto: divulgação
Pesquisa revela impacto das redes sociais no desempenho escolar e no sono dos estudantes
Estudo elaborado por aluno do Ensino Médio e UFPR ouviu cerca de mil alunos Uma pesquisa iniciada como...
Saiba mais >
Paulistão Feminino ganha em 2024 o sobrenome e apoio do Sicredi, mais longevo patrocinador da Federação Paulista de Futebol Créditos: Divulgação
Feito histórico: Paulistão Feminino ganha naming rights do Sicredi e tem premiação recorde em 2024
Com patrocínio da instituição financeira cooperativa, campeonato inicia em 21 de maio com onze clubes...
Saiba mais >
Sicredi
Sicredi dobra o valor arrecadado em movimento nacional para o Rio Grande do Sul e inicia nova mobilização
Instituição financeira cooperativa também atua na linha de frente de centros de distribuição de donativos,...
Saiba mais >