Artigo: Entendendo o desemprego

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Por José Pio Martins, economista e reitor da Universidade Positivo

Segundo o IBGE, o desemprego rompeu a barreira dos 10% da população economicamente ativa (aquela em condições de trabalhar), chegando a 11 milhões de desempregados. É uma situação muito grave. A primeira observação é: o número de pessoas trabalhando depende do tamanho do Produto Interno Bruto (PIB). Quando o PIB de 2014 ficou do mesmo tamanho do ano anterior e o de 2015 caiu 3,5%, a consequência natural seria o aumento do desemprego que viria mais adiante. E veio.
Há pelo menos três tipos de desemprego. O primeiro é o desemprego keynesiano (explicado por John Maynard Keynes na grande depressão de 1930). Neste, a causa é a insuficiência de demanda agregada (consumo das pessoas, consumo do governo, investimentos das empresas, investimento do governo e demanda do resto do mundo). Caindo a demanda, a produção é reduzida, pessoas são demitidas e parte do estoque capital (fábricas, infraestrutura, máquinas, equipamentos etc) entra em ociosidade.
O segundo é o desemprego marxiano (explicado por Karl Marx no período 1850-1870). Neste, há insuficiência de capital para ocupar toda a mão de obra disponível. Ou seja, mesmo que haja demanda, a estrutura de capital produtivo não é capaz de absorver todas as pessoas em condições de trabalhar, e há duas consequências: aumento do desemprego e queda dos salários. Neste ponto reside a essência da bronca de Marx com o capitalismo, para quem o sistema promoveria a redução de salários pelo excesso de pessoas procurando trabalho.
No tempo de Marx (ele morreu em 1883), a Revolução Industrial estava no começo e não havia capital instalado para ocupar toda a mão de obra disponível, entre outras razões, porque a população crescia exponencialmente. Em 1830, o mundo tinha 1 bilhão de habitantes e, em 1930, 2 bilhões. Ou seja, o dobro em apenas 100 anos. Ao dizer que a religião era o “ópio das massas”, Marx acusou a igreja de criar o conformismo entre os pobres e nada fazer para conter a explosão da população.
O terceiro é o desemprego tecnológico. Em 1970, o Brasil tinha 46% da população vivendo na zona rural. Hoje, apenas 12% dos brasileiros vivem no campo, como resultado das tecnologias produtivas, que diminuem a necessidade de gente. Nas últimas décadas, o mesmo aconteceu com a indústria de transformação. A expressão “colarinho branco” surgiu em meados da década 1950, quando o número de empregados de macacão na lavoura e nas fábricas tornou-se menor que o número de trabalhadores em setores administrativos e de serviços. No futuro, a maioria das fábricas irá operar praticamente sem operários, substituídos por robôs sapiens.
No Brasil, os três tipos de desemprego estão presentes. A compreensão desse problema não é tão simples quanto transparece nas discussões de nossos governantes, dos parlamentares e da maioria dos dirigentes sindicais. Certamente, a maioria deles nunca parou para estudar seriamente o tema e fazer um debate profundo sobre essa problemática (ressalvadas as honrosas exceções de praxe), livres de cacoetes partidários e ideológicos.
Afora os periódicos especializados, a imprensa em geral também perpassa esse assunto, roçando a superfície do tema sem se aprofundar em explicações teoricamente mais elaboradas. Isso é ruim, porquanto se trata de uma das mais complexas e graves questões sociais. Voltarei ao tema em outro artigo.

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