Brasileira participa de projeto para diminuir ataques de tubarões na Austrália

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Rede de emalhe está sendo testada como forma de proteger humanos e, também, a fauna marinha

 
De acordo com o Arquivo Global de Ataques de Tubarão, 2015 foi um ano com recorde de ocorrências registradas nos oceanos. Foram 98 incidentes, sendo seis fatalidades – resultado 26 vezes maior que o de 2014 e 40 vezes maior que da década anterior. São vários os motivos que levaram a esse acréscimo, entre eles a recuperação da população de algumas espécies pelas restrições pesqueiras e alterações na distribuição e uso das áreas pelas espécies, em resposta às mudanças climáticas.
A Austrália é um dos países com maior volume de ataques. Só o estado de New South Wales identificou, desde janeiro de 2014, 27 interações não provocadas com tubarões, sendo que seis causaram lesões sérias e três terminaram na morte de humanos. Devido a isso, o governo australiano e pesquisadores de diversas instituições de New South Wales estão conduzindo o projeto de manejo de tubarões “Smart Shark Alert”. Para a etapa de instalação das redes e capacitação das equipes locais, o trabalho conta com o apoio de pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Iniciada em novembro deste ano, a etapa terá duração de seis meses e testará o uso de redes de emalhe como forma de capturar os tubarões, inserir transmissores e fazer o acompanhamento. De uma forma não letal, também irá manter a espécie afastada da zona de praia e auxiliará na diminuição do número de incidentes na costa norte do estado. A iniciativa está sendo implantada inicialmente em cinco lugares prioritários, nas praias de Lennox Head, Sharpes, Shelly, Lighthouse e Evans Head. Com mais de 11 milhões de visitantes, a região é o principal destino de turismo e foi alvo de três ataques recentes fatais com tubarões brancos.
Uma das convidadas a participar da fase inicial da pesquisa é Camila Domit, bióloga, pesquisadora da UFPR e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza. Segundo ela, a estratégia de instalar redes visa apenas diminuir as ocorrências dos animais na área de surfe. “O objetivo não é causar problemas a nenhum animal da fauna marinha, mas manter tubarões maiores afastados da zona de arrebentação e assim reduzir as interações com seres humanos”, explica.
Primeiros passos
Durante a fase experimental, a equipe de observadores e pescadores passa por treinamentos quanto a atendimentos emergenciais para reduzir o estresse pós captura em mamíferos marinhos e tartarugas. “A concepção das redes foi feita para evitar o contato com essas espécies e também foram inseridos dispositivos acústicos pra manter mamíferos marinhos distantes das redes”, lembra.
A participação da especialista no projeto focou na redução de possíveis impactos à fauna marinha. “Inicialmente colaboramos com ideias para reduzir risco de capturas de animais não-alvo, e, caso sejam capturados, que todos possam ser devolvidos com vida a uma área mais afastada da zona de praia”, ressalta. Os tubarões serão marcados com tags acústicas para o acompanhamento a longo prazo.
Este não é o primeiro projeto que os pesquisadores de New South Wales e da universidade paranaense desenvolvem juntos. A parceria já ocorre há alguns anos e avalia, principalmente, a interação entre pescaria e espécies da megafauna (golfinhos e tartarugas marinhas), além de contemplar o desenvolvimento de dispositivos e procedimentos que auxiliam na redução de danos à fauna.
Aumento das interações
A Austrália tem uma rígida legislação ambiental e proteção da fauna marinha. Para a bióloga, esse pode ser um dos fatores que contribuíram para o aumento das interações entre tubarões e humanos. “Essas estratégias, alinhadas a muitos parques e áreas marinhas protegidas, podem ter permitido o crescimento e recuperação das populações de grandes predadores, assim como a alta biodiversidade e abundância da ictiofauna (espécies de peixes) em geral que vemos nas águas australianas”, analisa.
Algumas vertentes também apontam as mudanças climáticas como possíveis causas da elevação dessas ocorrências. Entretanto, a pesquisadora acredita que ainda é necessário maior detalhamento científico, principalmente no que se refere ao conhecimento de dinâmica populacional das espécies e a relação destes com parâmetros oceanográficos e climáticos.
“Ainda há muito para ser investigado quanto ao tamanho das populações, áreas de uso, relação de uso do habitat e interações tróficas, tanto na Austrália quanto em outras zonas costeiras. Esses estudos devem ser prioridade para que possamos avaliar com maior respaldo técnico os feitos negativos de impactos antrópicos e das mudanças climáticas”, completa.
 
*Camila Domit é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, uma reunião de profissionais, de referência nacional e internacional, que atuam em áreas relacionadas à proteção da biodiversidade e assuntos correlatos, com o objetivo de estimular a divulgação de posicionamentos em defesa da conservação da natureza brasileira. A Rede foi constituída em 2014, por iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

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