Construção de sentido: o que líderes erram ao falar cedo demais

Por Lorena Nogaroli

Nos últimos dias, a captura de Nicolás Maduro por forças dos EUA — seguida da transferência do ditador venezuelano para os Estados Unidos — reabriu uma discussão que quase sempre descamba para dois atalhos igualmente pobres: o moralismo simplificador (“bem contra mal”) ou o cinismo resignado (“é tudo interesse”). O episódio é grave, sobretudo porque levanta questões de soberania e de legalidade internacional que não se resolvem com indignação performática nem com celebrações apressadas. 

O sistema internacional continua a funcionar, em grande medida, sob a lógica da necessidade estratégica: gestão de vulnerabilidades, riscos, assimetrias e competição entre blocos. Em jogos de poder, muitas ações não buscam ganhos imediatos; buscam limitar opções futuras de outros atores, reposicionar dissuasões, testar limites, redefinir “linhas vermelhas”. Isso é recorrência estrutural, não novidade histórica.

Ainda assim, tomar o contexto como única lente também é perigoso. Ignorá-lo conduz a leituras ingênuas; absolutizá-lo conduz ao cinismo — e o cinismo, no fim, é apenas outra forma de cegueira. A maturidade está no meio do caminho: menos torcida, mais discernimento; menos julgamento instantâneo, mais compreensão do tabuleiro.

É justamente por isso que a comunicação oficial não é detalhe, mas parte do próprio jogo. Numa crise internacional com informação incompleta, cada palavra é um movimento: cria expectativas, compromete margens de manobra, aciona aliados, inflama opositores e deixa rastro reputacional. Foi nesse ponto que duas reações europeias chamaram atenção, não pelo conteúdo apenas, mas pela disciplina — ou pela falta dela.

No Reino Unido, Keir Starmer optou, de início, por uma postura cautelosa: afirmou que o país não participou da operação e insistiu na importância de respeitar o direito internacional, dizendo que queria “estabelecer os fatos” antes de ir além.  A decisão é clássica em comunicação de crise: antes de preencher o vazio, constrói-se sentido (sensemaking). Não se fala para parecer forte; fala-se para reduzir incerteza com responsabilidade. Ao limitar o discurso ao que podia sustentar — princípios, recortes e próximos passos — o premiê preservou credibilidade e flexibilidade num cenário volátil. 

Depois, com mais elementos, Starmer elevou o tom político ao declarar que o Reino Unido via Maduro como “ilegítimo” e que não derramava “lágrimas” pelo fim do seu regime — sem, porém, assumir envolvimento britânico na ação militar.  É uma estratégia conhecida: separar posição de valores (o que se defende) de atribuição de responsabilidade operacional (o que se fez), reduzindo risco de coautoria e mantendo espaço para ajustes conforme novas evidências ou pressões diplomáticas surjam.

Na França, Emmanuel Macron seguiu outro caminho: a reação inicial foi interpretada como triunfalista — com uma formulação no sentido de que o povo venezuelano “só poderia se alegrar” com a queda da ditadura — e gerou reação imediata de adversários e críticas no debate doméstico.  Em seguida, o governo francês precisou fazer correções públicas, enfatizando que o “método” utilizado pelos EUA não era apoiado ou aprovado por Paris e reancorando a narrativa na necessidade de respeito ao direito internacional. 

Não é apenas uma disputa de estilo: é uma lição sobre como a pressa em “fechar a história” pode virar um bumerangue. Quando um líder celebra antes de o quadro estar minimamente estabilizado, ele cria duas armadilhas: (1) fica refém do enredo que ele mesmo ajudou a fabricar; (2) se expõe a revisões constrangedoras — o “passo atrás” que, no ambiente digital, costuma ser lido como contradição, não como prudência. O resultado é ruído — e ruído, em diplomacia, custa caro.

Há ainda um aspecto mais profundo: numa crise geopolítica, a comunicação não serve só para “explicar” — ela serve para administrar legitimidade. E legitimidade, aqui, passa inevitavelmente pelo debate jurídico. Especialistas e instituições têm apontado dificuldades em enquadrar a operação dentro das justificativas usuais do uso da força, lembrando o princípio de soberania e as restrições impostas pela Carta da ONU.  Esse ponto importa porque, goste-se ou não do regime, normalizar atalhos fora do direito internacional abre precedentes que serão usados por outros — inclusive por atores cujos objetivos o Ocidente costuma condenar.

A combinação de realismo de contexto com disciplina comunicacional sugere um caminho mais útil para quem tenta interpretar — e para quem precisa decidir. A pergunta central não é “o que se diz”, mas “o que o contexto torna necessário fazer”. Mas, na mesma medida, a pergunta não pode ser apenas “o que se torna necessário”: é preciso perguntar “a que custo”, “com que precedente” e “com que lastro de legitimidade”. Sem isso, caímos no maniqueísmo ou na apatia.

Para líderes públicos (e, sim, para líderes corporativos), a lição é prática:

  1. Separe princípios de fatos. Declare valores e objetivos, mas não “feche” conclusões sem evidência suficiente.  
  2. Evite triunfalismo em cenários instáveis. Celebrar desfechos antes da consolidação costuma gerar correções humilhantes — e erosão reputacional.  
  3. Comunique processo. Dizer “estamos apurando, falando com aliados, avaliando impactos” não é fraqueza; é governança.  
  4. Preserve margem de manobra. Em crises internacionais, a palavra de hoje pode virar compromisso de amanhã.

Para quem observa (e comenta), talvez a maturidade seja esta: menos julgamento instantâneo, mais leitura do tabuleiro; menos torcida, mais discernimento. Porque, em geopolítica, o microfone não é acessório — é parte da estratégia. E, na Venezuela, como tantas vezes na história, entender o contexto não é justificar tudo; é apenas recusar a análise pobre.

Share:

Latest posts

Capacitacao
Professores de Toledo participam de imersão educacional na Finlândia
hidratacao (1)
Quatro dicas para adaptar treinos ao calor intenso do verão
Divulgacao-Plaza-Campos-Gerais (1)
Plaza Campos Gerais abre programação de férias com parque infantil

Sign up for our newsletter

Acompanhe nossas redes

related articles

Capacitacao
Professores de Toledo participam de imersão educacional na Finlândia
Investimento na formação de professores beneficia estudantes e contribui para o desenvolvimento educacional...
Saiba mais >
hidratacao (1)
Quatro dicas para adaptar treinos ao calor intenso do verão
Ajustes simples podem ajudar a manter desempenho e bem-estar nos dias mais quentes Com a chegada do...
Saiba mais >
Divulgacao-Plaza-Campos-Gerais (1)
Plaza Campos Gerais abre programação de férias com parque infantil
Atração para crianças de 3 a 12 anos reúne circuito de brinquedos com escorregadores, pula-pula, tobogãs...
Saiba mais >
-KL-8410
Curso e Colégio Positivo conquistam 50% das vagas de ampla concorrência em Medicina na UEPG
Instituições também garantiram três das cinco maiores notas gerais do vestibular da Universidade Estadual...
Saiba mais >