Por Larissa Jedyn
Há 20 anos, o cenário do São Paulo Fashion Week era de guerra. Em maio de 2006, enquanto as modelos cruzavam a passarela, o PCC parava a cidade. Eu estava lá, dividida entre o glamour dos desfiles e o pavor nas ruas, narrando em notas para o jornal diário um “lockdown” informal, muito antes de sabermos o que essa palavra significava. Entendi rápido que a moda não acontece numa bolha.
Dois anos depois, a situação mudou, mas a realidade gritou novamente. Subi em uma balsa para percorrer o Rio Tietê. O motivo? O desfile-manifesto da Cavalera. De capa de chuva e máscara respiratória, vi uma coleção feita a partir de refugos têxteis de edições passadas da marca. Em um dos rios mais poluídos do mundo, a moda esfregava na nossa cara que era (e ainda é) preciso se reinventar.
De lá para cá, muita água passou debaixo daquela balsa. Vi o luxo gringo flertar com o ativismo e vi o mineiro Ronaldo Fraga trazendo o trabalho primoroso de rendeiras dos rincões do Brasil para a roda da economia. Vi a curitibana H-AL transformar descarte em arte pura.

Um “corre” que ninguém vê
Vivi dez anos nessa ponte aérea fashion entre Curitiba, São Paulo, Rio, Fortaleza e BH. Conheci, da cozinha do Copacabana Palace, em um desfile lúdico da Isabela Capeto, aos bastidores da Bienal de SP. Andei de van com Costanza Pascolato — que me confessou que seus anéis de caveira eram da 25 de Março — e troquei cumprimentos com Jamelão, o saudoso puxador da Mangueira, logo após ele cantar ao vivo num desfile de moda praia. Registros devidamente guardados no coração, porque, na época, celular não tirava foto boa.
O jornalismo de moda sempre teve mais “corre” do que champanhe. Se antes a luta era bater o fechamento do jornal impresso, hoje o tempo é real e o clique é instantâneo. Mas a essência é a mesma: menos pose e mais notícia.

Modaterapia: o olhar para dentro
Depois de um tempo cobrindo outros mundos, um convite me trouxe de volta. Há sete anos, assino, semanalmente, a coluna Modaterapia em um jornal do estado. O nome é brincadeira, mas o papo é sério. Depois de tanta estrada, percebi que “tendência” é a parte mais sem graça desse rolê.
Moda é linguagem. É autoconhecimento, escolha, consciência corporal, história, vivência e origem. É sobre entender que ninguém “tem que ter” nada. É mais sobre acabar com padrões obsoletos do que tentar caber numa convenção cafona. E, pasmem, não é preciso comprar roupa nova para garantir essa liberdade. Repetir roupa não é falta de opção, é assinatura de estilo; poucas e boas peças podem se multiplicar com um novo truque de styling; e armário cheio não é sinônimo de elegância.
Outra coisa boa que a moda me trouxe foi olhar mais para minha cidade. Andar pelas ruas atrás de novidades, entender as escolhas de quem anda por aqui e conhecer talentos. Há, em Curitiba, uma cena autoral pulsante, que transforma propósito em estética. Quando escolhemos o design local, financiamos mentes criativas que conhecemos pelo nome. Isso faz bem para a economia local e gera o senso de pertencimento. Afinal, a cidade que teve um vampiro faz moda de um jeito diferente — e isso fala muito sobre você também. Mas isso é assunto para uma outra conversa.
