Por Carolina Werneck
No sofá de madeira clara e estofado xadrez em tons de bege e marrom, os dedos ágeis seguravam a agulha com firmeza, indo e voltando no tecido, cuidando para que a linha não se enrolasse, alinhavando uma barra ou uma manga. Enquanto prestava atenção à tarefa, ela me olhava de lado, através dos óculos grossos que a acompanhavam desde a juventude, e sorria. Depois, havia a agulha de crochê e milhares de metros de barbantes e linhas de todas as cores que viravam tapetes e caminhos de mesa, barras de guardanapo e todo tipo de paninho para enfeitar a cozinha, a sala, a copa, os quartos. “Tudo começa com uma correntinha, Cacá”, vovó dizia, tentando me ensinar a base para aquele trabalho que me parecia impossível. Trancei muitas correntinhas, ao longo dos anos, mas infelizmente nunca passei delas.
A poucas quadras dali, em casa, era o tricô que transformava novelos de lã em blusas, cachecóis, sapatinhos e luvinhas para todos os bebês que se anunciavam. As longas agulhas de plástico foram inúmeras vezes varinhas de condão e espadas para toda sorte de enredo das brincadeiras que inventávamos, mas sempre precisavam voltar ao estojo no fim do dia.
Já na outra avó, as mãos com longos dedos e veias muito aparentes espalhavam a lã ainda crua, recém tosquiada, sobre grandes pedaços de tecido. Depois, costuravam os acolchoados que aqueceram toda a extensa e confusa família nos muitos invernos. O último deles, para minha surpresa, foi o que elas fizeram para o meu enxoval, quando eu sequer pensava em casamento.
Linha, agulha, alfinete, dedal, botões, os pés controlando a velocidade da máquina de costura, a correia que às vezes ressecava e arrebentava, o som quase hipnótico do tecido sendo perfurado. Lembranças brilhantes que estão emaranhadas em tantas outras da infância de interior que vivi. Construir as tramas e fazer delas abrigo é um pouco o que fazem, na verdade, todas as mães, avós, bisavós, tias, madrinhas, mães de amigas, amigas que são um pouco mães da gente, também.
Costurar foi, no começo, uma forma de vestir roupas que me fizessem mais eu mesma, peças que eu não encontrava nas lojas, estampas que as marcas de consumo de massa não contemplavam. Com o tempo, virou amor e uma forma de estar nos pequenos detalhes que se juntam para formar o que chamamos de uma vida toda. No dia do meu casamento, preguei pedaços de renda que ainda não estavam perfeitos no vestido, enquanto minha avó me dava uma bronca “por que você não me pediu, Cacá?” e minha tia, incrédula, juntava com linha e agulha as pontas do véu que eu também deixei para a última hora. Amor.
Hoje, quando conserto a camiseta do uniforme ou faço a barra do quimono de judô do meu filho, vejo um pouco da minha avó Iracelis alinhavando as barras das minhas calças porque se irritava com a adolescente pisando nelas o tempo todo. Vejo minha mãe tricotando o imenso casaco de lã azul que eu pedi porque não tinha a menor noção do trabalho infinito que ela teria. Vejo minha avó Elma entregando aquele acolchoado nas minhas mãos, os olhos sorrindo para a neta que ela desistiu de entender e só aceitou. Amor, amor, amor. Tudo começa com uma correntinha e, no fim, amor é só o que precisamos costurar.