Fadiga constante e dores no corpo podem indicar doenças autoimunes em mulheres

Casos como os de Selena Gomez, Selma Blair e Cláudia Rodrigues ajudam a dar visibilidade a condições que ainda passam despercebidas no dia a dia

Cansaço persistente, dores no corpo, alterações de sensibilidade e até mudanças na visão podem ser os primeiros sinais de doenças autoimunes — condições em que o sistema imunológico passa a atacar o próprio organismo. Apesar da ampla ocorrência, essas doenças ainda são frequentemente subdiagnosticadas, especialmente entre mulheres. 

Estimativas de sociedades médicas internacionais indicam que as doenças autoimunes afetam entre 5% e 8% da população mundial. A incidência é maior no público feminino, que concentra a maior parte dos casos e tem risco até quatro vezes superior de desenvolvê-las, sobretudo entre os 30 e 40 anos.

Mais do que uma questão biológica, especialistas chamam atenção para um fator comportamental e social: muitas mulheres tendem a normalizar sintomas como a fadiga e a dor, associando-os à sobrecarga da rotina, ao acúmulo de funções e ao estresse do dia a dia. Esse padrão pode atrasar a busca por atendimento e contribuir para o diagnóstico tardio.

O tema ganhou visibilidade nos últimos anos com figuras públicas no Brasil e no exterior. A cantora Selena Gomez, diagnosticada com lúpus, e as atrizes Selma Blair e Cláudia Rodrigues, que convivem com esclerose múltipla, ajudaram a ampliar o debate sobre doenças que, apesar de relativamente frequentes, ainda têm diagnóstico tardio em muitos casos. 

Segundo a reumatologista do Hospital São Marcelino Champagnat, Ana Cristina Boni Lenci, o início costuma ser marcado por sintomas comuns e pouco específicos, o que contribui para que sejam subestimados. “Observamos com frequência, no consultório, que sinais como fadiga, febre e dores no corpo acabam sendo atribuídos ao estresse ou à sobrecarga da rotina. Com isso, o paciente demora a buscar ajuda e, quando o faz, nem sempre é encaminhado ao especialista adequado”, explica.

Esse atraso na busca por atendimento, aliado à variedade de sintomas, é um dos principais fatores para o diagnóstico tardio. Há ainda um componente biológico relevante: a maior incidência em mulheres está relacionada à influência hormonal sobre o sistema imunológico, especialmente em fases de maior variação hormonal ao longo da vida adulta.

Sinais além do cansaço

Entre as condições sistêmicas, o lúpus é uma das mais conhecidas — e também das que mais geram confusão nas fases iniciais, já que os sinais podem ser facilmente atribuídos a situações comuns, como a exposição ao sol ou o desgaste físico.

Estimativas da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) apontam que a doença afeta entre 150 mil e 300 mil pessoas no país, principalmente mulheres jovens. Em média, o diagnóstico demora de três a seis anos. “Os sinais iniciais do lúpus dependem muito do órgão acometido. Entre os mais comuns, estão lesões de pele no rosto, com vermelhidão que muitas vezes é confundida com rosácea ou com reação ao sol. A dor articular também é frequente, mas, como geralmente não há inchaço ou calor, o paciente tende a atribuí-la ao uso excessivo das articulações”, esclarece a especialista.

O quadro pode envolver fadiga persistente, queda de cabelo localizada e, em estágios mais avançados, comprometimento de órgãos como os rins e o coração. A dor inflamatória apresenta um padrão característico: tende a ser mais intensa ao acordar, com rigidez, e melhora ao longo do dia, com o movimento. Sem tratamento, a doença pode evoluir e levar a complicações graves. Por outro lado, com acompanhamento adequado, é possível controlar a condição e preservar a qualidade de vida. “O paciente pode levar uma vida normal. O principal risco está no diagnóstico tardio, quando a doença já provocou danos”, reforça.

Esse tipo de dor inflamatória também está presente na artrite reumatoide, que atinge principalmente as articulações e pode ser confundida com desgaste natural, como a artrose. A doença afeta duas vezes mais mulheres do que homens, segundo a SBR. “A dor costuma vir acompanhada de rigidez matinal e dificuldade para movimentos simples, como fechar as mãos, e melhora ao longo do dia. É diferente da artrose, que tende a piorar com o uso”, explica.

Outra condição que afeta predominantemente mulheres é a síndrome de Sjögren, caracterizada pela secura intensa dos olhos e da boca. Diferente de quadros passageiros, o sintoma é contínuo e não melhora mesmo com hidratação ou uso de colírios, podendo comprometer as saúdes bucal e ocular. Em alguns casos, a doença também está associada a complicações mais graves, como o aumento do risco de linfoma.

Quando os sinais são neurológicos

Entre as doenças neurológicas relacionadas ao sistema imunológico, a esclerose múltipla ocorre com maior frequência em mulheres no início da vida adulta, entre os 20 e 30 anos. Alterações visuais, formigamentos, perda de força e dificuldades motoras podem surgir de forma isolada e, muitas vezes, são interpretadas como condições passageiras. “Toda nova alteração neurológica deve ser investigada, especialmente quando não há uma causa evidente. O início precoce do tratamento é essencial para evitar sequelas e preservar a qualidade de vida”, alerta a neuroimunologista do Hospital São Marcelino Champagnat, Mariana Trintinalha.

A miastenia gravis é outra condição que também afeta mulheres, geralmente por volta dos 30 anos, e tem como principal característica a fraqueza muscular flutuante. Ao contrário do cansaço comum, os sintomas tendem a piorar ao longo do dia. “É uma fadiga diferente: a pessoa começa o dia bem e vai piorando. Pode ter visão dupla e dificuldade para tarefas simples. Essa flutuação dos sintomas é bem característica”, detalha Mariana.

Por que essas doenças surgem — e como podem se acumular

Apesar das diferentes manifestações, as doenças autoimunes compartilham um mecanismo comum. Suas causas exatas ainda não são totalmente conhecidas, mas envolvem uma combinação de fatores genéticos, hormonais e ambientais. Infecções, estresse, exposição a agentes externos e alterações hormonais podem atuar como gatilhos em pessoas predispostas, o que ajuda a explicar tanto a maior frequência em mulheres quanto o surgimento em fases específicas da vida. 

Além disso, pessoas que já têm doença autoimune devem manter acompanhamento contínuo. Segundo as especialistas do Hospital São Marcelino Champagnat, há maior probabilidade de desenvolver outras condições ao longo do tempo, o que torna o monitoramento essencial para o diagnóstico precoce e o controle adequado.

Sobre o Hospital São Marcelino Champagnat

O Hospital São Marcelino Champagnat faz parte do Grupo Marista e nasceu com o compromisso de atender seus pacientes de forma completa e com princípios médicos de qualidade e segurança. É referência em procedimentos cirúrgicos de média e alta complexidade. Nas especialidades destacam-se: cardiologia, neurocirurgia, ortopedia, cirurgia robótica e cirurgia geral e bariátrica, além de serviços diferenciados de check-up. Planejado para atender a todos os quesitos internacionais de qualidade assistencial, é o único do Paraná certificado pela Joint Commission International (JCI).

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