Foto: Freepik

Estratégia midiática e tempestade pública

O papel da imprensa britânica na amplificação do escândalo real

O lançamento do livro Entitled não foi apenas editorial: foi uma operação estratégica de relações públicas. A escolha do tabloide Daily Mail para publicar trechos diários da obra durante a semana de estreia foi certeira. O jornal assegurou os direitos de acesso antecipado e, com isso, criou uma espécie de “efeito seriado” — cada nova revelação alimentava o noticiário, a indignação pública e, claro, as vendas.

Em pouco tempo, os principais veículos britânicos mergulharam no tema. The Times descreveu a obra como “implacável”, destacando que “a rainha sabia” do comportamento do filho. The Guardian e a Euronews deram ênfase à relação do príncipe Andrew com Jeffrey Epstein, apontada como o ponto mais explosivo do livro. A crítica mais ácida veio do The Telegraph, cujo colunista questionou a profundidade psicológica da narrativa e acusou o autor Andrew Lownie de sensacionalismo.

As reações foram diversas, mas o saldo foi unânime: o livro havia reacendido um escândalo com potencial para abalar a imagem da família real. E isso não se limitou ao Reino Unido. Jornais da Austrália, Estados Unidos e de países da Commonwealth também repercutiram os trechos publicados e ecoaram as críticas, entrevistas e denúncias.

Do ponto de vista da reputação, esse tipo de cobertura é altamente corrosivo. Quando há convergência entre veículos distintos — da imprensa popular à tradicional —, cria-se um senso coletivo de veracidade, que transforma a narrativa em percepção dominante. E, como demonstram estudos de reputação, a percepção tende a ser mais forte do que os fatos objetivos.

Essa amplificação não foi casual. Foi resultado de uma estratégia bem planejada de lançamento que soube explorar o timing, o apetite do público e a crise de confiança que ronda a monarquia britânica. Ao fazer isso, a obra tocou em uma camada profunda da reputação institucional: a narrativa.

Como veremos na próxima parte, essa camada — muitas vezes invisível — tem o poder de reconfigurar sentimentos, questionar símbolos e desestabilizar até mesmo marcas centenárias.

Por Lorena Nogaroli, especializada em Gestão de Riscos e Crises pela LSE. Fundadora da Central Press, dirige o escritório da agência de reputação em Londres.

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