O livro que estremeceu Buckingham

Como uma biografia provocou nova crise na família real britânica

Lançado em 14 de agosto, o livro Entitled – The Rise and Fall of the House of York, do biógrafo e historiador britânico Andrew Lownie, reabriu uma ferida que a monarquia britânica tentava cicatrizar desde 2019. Em vez de um retrato histórico da família real, a obra apresenta um dossiê devastador sobre o príncipe Andrew e sua ex-esposa, Sarah Ferguson — com revelações que têm implicações diretas na imagem da monarquia como instituição.

A escolha do título é, por si só, um ato de crítica. Em inglês, Entitled carrega um duplo sentido: significa tanto “intitulado”, em referência a quem possui um título nobre, quanto “convencido” ou “arrogante”, designando quem se julga superior por direito próprio. Não há tradução direta em português capaz de capturar essa ambiguidade, o que torna o título um comentário ácido sobre a lógica aristocrática dos privilégios — e é justamente aí que a narrativa se conecta com a gestão de reputações públicas.

Andrew é descrito como um homem emocionalmente instável, arrogante e compulsivo do ponto de vista sexual. O autor afirma, por exemplo, que o duque de York perdeu a virgindade aos 13 anos e manteve por mais tempo e com mais proximidade seus laços com o pedófilo Jeffrey Epstein do que o Palácio havia admitido. Já Sarah Ferguson, duquesa de York, é retratada como financeiramente caótica e midiaticamente impulsiva.

Não é um retrato qualquer: Andrew era o filho preferido da rainha Elizabeth II, falecida em 2022. Mesmo após seu afastamento de funções públicas e perda de títulos honoríficos, havia um esforço institucional para suavizar os danos à sua imagem — e, por extensão, à da coroa. A publicação do livro rompe essa blindagem e coloca novamente o príncipe no centro de uma crise reputacional profunda, com grande poder de contágio simbólico. 

O impacto do livro Entitled ultrapassa o conteúdo revelado. Ele mostra como uma obra com base documental, entrevistas e análise biográfica pode se tornar uma arma poderosa na disputa por narrativas — e por reputações. Na próxima parte desta série, exploraremos como a estratégia de comunicação do lançamento e a atuação da imprensa ampliaram esse impacto, transformando um livro em um julgamento coletivo.

Por Lorena Nogaroli, especializada em Gestão de Riscos e Crises pela LSE. Fundadora da Central Press, dirige o escritório da agência de reputação em Londres.

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