O impacto de uma reputação destruída em quem não tem culpa
Uma crise de reputação nunca atinge apenas a figura central. Quando uma imagem pública se desfaz, o dano se propaga como um tremor secundário, afetando pessoas próximas — emocional, social e simbolicamente. Esse efeito colateral é silencioso, mas profundo. E, frequentemente, negligenciado pelas análises mais imediatistas.
No caso do príncipe Andrew, a repercussão do livro Entitled não recaiu apenas sobre ele. Amigos das princesas Beatrice e Eugenie, filhas do duque de York com Sarah Ferguson, relataram à revista Marie Claire que ambas estão “devastadas”. Embora não sejam foco da obra, são herdeiras involuntárias de uma narrativa carregada de escândalo — algo que repercute em suas vidas públicas, relações pessoais e imagem institucional.
Esse fenômeno não é exclusivo da monarquia britânica. No Brasil, durante a operação Lava Jato, a crise reputacional da Odebrecht afetou não apenas o empresário Marcelo Odebrecht, mas também sua esposa e filhas. Mesmo sem envolvimento direto nos crimes investigados, as jovens enfrentaram ações judiciais, estigmatização pública e, num gesto simbólico poderoso, decidiram remover o sobrenome da família de seus documentos.
Esses exemplos ilustram o que a literatura sobre reputação chama de contágio simbólico: a transferência involuntária do dano reputacional para membros da rede familiar, afetiva ou institucional. O que se perde, nesses casos, é o direito à individualidade. O sobrenome vira rótulo. O laço vira mancha.
Sarah Ferguson, por sua vez, tem adotado outra estratégia. Após enfrentar um tratamento contra o câncer de mama, ela anunciou que responderá às acusações por meio de uma autobiografia prevista para 2026. Ao usar o mesmo instrumento que provocou a crise — o livro — como ferramenta de defesa, ela aposta em um contra-ataque narrativo. Trata-se de uma tática de reposicionamento simbólico: não silenciar, mas narrar. Não negar os fatos, mas apresentar outra versão deles.
Eis o paradoxo: enquanto muitos exigem respostas públicas imediatas da família real, o silêncio estratégico pode ser a única forma possível de proteção coletiva diante da exposição contínua. Mas isso não elimina os efeitos da crise. Apenas adia o embate.
Na última parte desta série, abordaremos o que talvez seja o ponto mais sensível de toda essa discussão: quem realmente se beneficia com a destruição da reputação de Andrew? E por que, num momento tão simbólico, ele permanece o centro das atenções — enquanto o futuro da monarquia se redesenha, em silêncio, nos bastidores.
Por Lorena Nogaroli, especializada em Gestão de Riscos e Crises pela LSE. Fundadora da Central Press, dirige o escritório da agência de reputação em Londres.