Silêncio estratégico e cortinas de fumaça

A quem interessa manter o foco em Andrew?

Desde que o escândalo envolvendo o príncipe Andrew e Jeffrey Epstein veio à tona em 2019, sua reputação entrou em colapso. Com o lançamento do livro Entitled, a imagem do duque de York foi não apenas deteriorada — foi definitivamente selada como um símbolo da decadência moral associada a privilégios descolados da ética pública.

Mas há uma pergunta que, no campo da reputação, merece atenção especial: por que ainda se fala tanto de Andrew, o oitavo na linha de sucessão do trono britânico? E, mais importante: quem se beneficia com isso?

Enquanto a imprensa internacional disseca sua trajetória com indignação crescente, o príncipe William — herdeiro direto do trono — mantém 74% de aprovação popular, segundo dados da YouGov. Mesmo envolvido, direta ou indiretamente, nas decisões institucionais que permitiram o afastamento do tio e a manutenção da imagem da coroa, William permanece fora da zona de atrito.

Esse contraste é estratégico. Em crises institucionais, é comum sacrificar um personagem secundário para preservar o protagonista. Trata-se de um movimento típico de gestão simbólica: canalizar a indignação coletiva para uma figura sem potencial de retorno ao poder, enquanto os alicerces centrais da organização são mantidos intactos.

Nesse sentido, o silêncio da monarquia pode não ser apenas uma escolha protocolar, mas uma tática sofisticada de contenção simbólica. Quanto mais se fala de Andrew, menos se questiona o modelo de poder que o produziu — e que ainda sustenta os demais membros da família real. Ele se torna, assim, um desvio de atenção funcional.

Em linguagem de gestão de reputação, podemos dizer que o “ativo reputacional” de Andrew foi abandonado. Não há interesse institucional em recuperá-lo. Ele se tornou o símbolo perfeito do erro já punido. Um escândalo útil. Um foco conveniente. Uma cortina de fumaça eficaz.

No fim das contas, a reputação é menos sobre quem se é, e mais sobre quem se deixa parecer. E, como mostra esse caso, o controle narrativo não está apenas em quem fala — mas também em quem escolhe o que não dizer.

 

Por Lorena Nogaroli, especializada em Gestão de Riscos e Crises pela LSE. Fundadora da Central Press, dirige o escritório da agência de reputação em Londres.

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