O mestre e o samurai: lições do Japão para a sala de aula brasileira

Por Paulo Rocha*

No Japão, quando um professor entra na sala, os alunos se levantam. O gesto é simples, mas carregado de simbolismo. Lá, o mestre ainda é mestre — e não por tradição, mas por escolha social consciente. É chamado de sensei — aquele que veio antes e, por isso, merece respeito. Aqui, muitos professores entram em classe carregando não apenas livros e planos de aula, mas também o medo de serem desacatados, desautorizados ou, em casos extremos, agredidos. Essa diferença de gestos cotidianos revela mais sobre os sistemas educacionais do que qualquer tabela de desempenho.

Os números do PISA 2022 confirmam o que os gestos já anunciam. Os estudantes brasileiros alcançaram 379 pontos em matemática e 410 em leitura, sempre abaixo da média da OCDE, enquanto os japoneses se destacaram com 536 pontos em matemática e 516 em leitura. A distância não é apenas aritmética: é simbólica. Reflete o modo como cada país cuida de seus mestres. O Japão compreendeu que professores não são meros transmissores de conteúdo, mas guardiões de um projeto de nação. O Brasil, ao contrário, insiste em tratá-los como peças descartáveis de uma engrenagem burocrática.

O Brasil reconhece, no discurso, que a educação é prioridade. Mas, na prática, falha em valorizar quem sustenta esse sistema: os docentes. Dados do relatório Education at a Glance 2023, da OCDE, mostram que professores brasileiros do ensino fundamental recebem menos da metade do que ganham outros profissionais com curso superior. Soma-se a isso uma formação inicial frequentemente precária e uma formação continuada irregular e desarticulada.

Os reflexos são conhecidos de todos os gestores escolares: alta rotatividade, desmotivação e dificuldade em manter equipes estáveis e engajadas. Em contrapartida, o Japão investe de forma planejada e estruturada na carreira docente. Ser aprovado como professor exige passar por rigorosos exames, comparáveis aos concursos para magistratura. Há plano de carreira, progressão salarial e, sobretudo, prestígio. O sensei é uma figura socialmente valorizada.

Não se trata apenas de salário. Trata-se de construir uma cultura institucional e comunitária de apoio ao professor. Durante minha visita, percebi que o respeito pelo docente não é uma decoração cerimonial, mas um eixo estruturante do sistema.

No Brasil, sabemos onde estão os problemas. Muitos de nós, na gestão escolar ou pública, já tivemos que lidar com docentes adoecidos, pedidos de exoneração, dificuldade em preencher vagas, e uma juventude que, cada vez menos, quer seguir carreira docente. Isso não se resolve apenas com aumento de salário — ainda que isso seja urgente. É preciso um pacto pela valorização real do magistério: formação sólida, apoio institucional, segurança nas escolas, reconhecimento simbólico e concreto.

A educação japonesa mostra que isso é possível. E mostra, sobretudo, que começa por uma decisão política clara: colocar o professor no centro. Gestores escolares e públicos têm papel central nesse processo. São eles que podem transformar diretrizes em rotinas, legislações em condições reais, discursos em práticas.

É possível que nunca adotemos o hábito de levantar quando o professor entra. Mas se não mudarmos o que acontece depois que ele entra — desrespeito, abandono, insegurança — logo não teremos mais ninguém entrando para ensinar.

* Paulo R. C. Rocha é gestor e pesquisador em políticas educacionais e vice-presidente do Biopark.

Share:

Latest posts

RRM-7850-reduced (1)
ExpoApras 2026: Sicredi reforça parceria com o varejo paranaense
imagem-comprimida-2 (1) (1)
Crédito rural do Sicredi soma R$ 13,7 bilhões em São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná
Loram-e-MRS-reforcam-parceria-que-ja-mais-de-duas-decadas.-Credito - Joao-Marcos-Elyark-Central-Pressjpg
Loram South America entrega novas máquinas à MRS em contrato bilionário de operação e manutenção ferroviária

Sign up for our newsletter

Acompanhe nossas redes

related articles

RRM-7850-reduced (1)
ExpoApras 2026: Sicredi reforça parceria com o varejo paranaense
Crescimento de 18,25% na carteira de crédito PJ na regional que inclui o Paraná evidencia força de atuação...
Saiba mais >
imagem-comprimida-2 (1) (1)
Crédito rural do Sicredi soma R$ 13,7 bilhões em São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná
Em todo Brasil, valor chega a R$ 48,3 bilhões nos primeiros oito meses da Safra 25/26, com alta de 15,7%...
Saiba mais >
Loram-e-MRS-reforcam-parceria-que-ja-mais-de-duas-decadas.-Credito - Joao-Marcos-Elyark-Central-Pressjpg
Loram South America entrega novas máquinas à MRS em contrato bilionário de operação e manutenção ferroviária
Equipamentos de alta tecnologia serão operados pela própria multinacional em um modelo que foca na expansão...
Saiba mais >
Envato Imagens
NR-1 exige o que antes era invisível: como medir riscos psicossociais nas empresas
Atualização da norma inaugura uma nova lógica de gestão; fatores como estresse, burnout e assédio deixam...
Saiba mais >